Thursday, July 05, 2018

EU MENINA, NÓS MULHERES - MEMÓRIAS DE DITADURAS

No dia 04 de maio de 2018, apresentou-se no palco do Teatro Sulica da Fundação Cultural do Piauí, o espetáculo Eu Menina, nós mulheres - Memórias de ditaduras, dentro da programação do evento Profissão Artista promovida pelo Sindicato de Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões Públicas do estado do Piauí(SATED-PI).

Foi um acontecimento muito especial apresentar o espetáculo naquele palco que segundo o teatrólogo Aci Campelo, foi um dos primeiros teatros de Teresina. Em seu livro Novo Perfil do Teatro do Piauí ele diz:”Teresina começou o seu teatro nos casarões familiares, sendo a mais antiga casa situada na Praça da Constituição, hoje Praça Marechal Deodoro, onde em 1858 existiu o primeiro teatro chamado Teatro Santa Teresa(Hoje funciona a Fundação Cultural do Piauí)”(1)

A este fato juntaram-se as presenças de pessoas muito importantes do teatro e da cultura piauiensse. Estavam na platéia: a  professora Cecília Mendes (Artista Plástica, Bonequeira, Professora aposentada da UFPI e ex-presidente da Fundação Municipal de Cultura); José Afonso Lima (dramaturgo e ex-presidente da SBAT/PI); Aci Campelo (Dramaturgo) ; as atrizes Lari Sales ( presidente do SATED); Lorena Campelo, Carmem Carvalho e Claudia Amorim, (ex-companheiras de Rosa  na Cia de Mulheres); a dramaturga e professora aposentada da PUC/RJ Isis Baião; o ator Xico Piauí com os seus alunos da Escola Técnica Estadual de Teatro Gomes Campos; o poeta Rogério Newton; os atores Fábio Costa, Wilson Costa e Augusto Neto; a professora e atriz Sandra Loiola. E também a presença do  presidente do SATED/CE Oscar Roney.

A construção do espetáculo seguiu dois caminhos paralelos, que foram se encontrando no resultado final: um caminho de pesquisa e busca pessoal da atriz, que jogou com transversalidades através do corpo de uma menina que vai se tornando mulher sendo atravessada por outros corpos femininos que foram dilacerados pela ditadura militar de 1964.Nisto os sonhos infantis, as brincadeiras, as memórias das travessuras e das angústias foram servindo de contextualização para a evocação de tantas mulheres que corajosamente enfrentaram o monstro fascista e pagaram com a própria vida.Diante de tal riqueza a direção optou por construir a encenação através da escuta psicanalítica.

O processo de construção da encenação de um espetáculo teatral pode fazer uso da técnica de escuta psicanalítica. No espetáculo “Memorias de ditaduras: eu menina, nós mulheres” com a atriz Rosa Carlos partiu-se de um texto motivador inicial de Mabel Veloso, informações sobre o desaparecimento das mulheres militantes da luta contra a ditadura militar brasileira de 1964, acrescidos da escuta psicanalítica das memórias de infância da atriz, usando a maneira de trabalhar da psicanalista Melanie Klein, que  provou que era possível a psicanálise com crianças  trabalhando com as mesmas a partir de interpretações que iam sendo construídas através dos desenhos infantis, e também da abordagem do psicanalista Luiz Cláudio Figueiredo sobre a “teoria geral do cuidar”.

 No caso da atriz estes “desenhos” eram tridimensionais, e construídos no espaço-tempo com o seu corpo. O objetivo foi investigar e construir através das memórias infantis que brotavam do inconsciente da atriz o espetáculo teatral traduzido fisicamente na cena. A montagem do setting analítico como o ambiente propício para a criação das cenas,foi demarcado  como um tabuleiro desenhado no palco que lembrava o jogo de Amarelinha, todas as coisas foram colocadas neste espaço e resignificadas, sendo consolidadas em um espetáculo que foi todo feito através de improvisações estruturadas, que foram se fixando, formando uma estrutura precisa em forma de uma partitura física, vocal e musical.

  A atriz em seu trabalho criativo no palco era como uma criança que recebeu do agente cuidador, o encenador, a atenção necessária para conseguir integrar as suas memórias evocadas no setting analítico dialogando com os contextos históricos nos quais ela estava inserida.

Para acessar as memórias da atriz recuperou-se uma estratégia chamada “gestos-portas” que já havia sido usada pelo encenador em outro espetáculo,  “A Mais forte”, encenado pelo Laboratório de Artes Cênicas da UFPB em 1995. Os “gestos-portas” são semelhantes a atos falhos, através dos quais, é possível acessar as memórias corporais profundas na cena. Como diz a pesquisadora Ciane Fernandes :“O corpo em cena ensina”.

O resultado foi a obtenção de um espetáculo intimista de 60 minutos com uma cenografia construída a partir de objetos significativos para atriz que foram reinterpretados no espetáculo. O uso da abordagem psicanalítica tornou possível e serviu adequadamente para a criação deste espetáculos teatral.

O espetáculo foi concebido para ser  apresentado em espaços alternativos prioritariamente como forma de levar  aos espectadores informações sobre fatos recentes da história brasileira. O teatro brasileiro é um poderoso antídoto contra o fascismo na luta pela democracia. Ao final do espetáculo as fotos de 46 mulheres assassinadas são trazidas para a cena preenchendo todo o palco.


Ficha técnica. Atuação, pesquisa, dramaturgia, figurino e seleção de trilha sonora:  Rosa Carlos. Poema incidental: “Eu Menina” gentilmente cedido por Mabel Veloso. Cenário: Everaldo Vasconcelos e Rosa Carlos. Direção: Everaldo Vasconcelos.


NOTAS

1 - Campelo, Aci. O novo perfil do teatro piauiense-1950-1990. Teresina. Edição do autor.1993

Tuesday, June 19, 2018

NAQUELE BAIRRO ENCANTADO

O fato que mais impressiona os observadores atuais da cultura brasileira  é a perda da memória coletiva. Uma tempestade midiática veio varrendo todo um pais de sua poesia e de alguma maneira tétrica implantando modos mais grosseiros na vida das pessoas. É como se tivéssemos sido vítimas de um tipo de guerra que destrói a alma e não o corpo. Não se trata somente de achar que o que passou era melhor; não é isso, mas a nostalgia de um clima de romance, que parece hoje estar diluído em espaços adversos ao amor.

Algo muito especial aconteceu. Sob a luz de uma lua que estava se enchendo de brilho e tendo no  alto da cabeça  a constelação de aquário o VI Festival Nacional de Teatro do Piauí,na cidade de Floriano, apresentou o espetáculo Naquele Bairro Encantado, do Grupo de Teatro Público de Minas Gerais, da cidade de Belo Horizonte,  fazendo parte da programação dos espetáculos de rua.

 No dia 01 de dezembro de 2017, o Festival Nacional de Teatro do Piauí, teve uma noite memorável que nos transportou para um tempo de paixões e encantamento. Foi como voltar ao passado, fazer uma viagem a um tempo de respeito, de cavalheirismo, de amor verdadeiro. É preciso repetir que sempre que pensamos em voltar ao passado se vem com aquele clichê de que lá tudo era mais belo, mais correto. Não é bem assim, os tempos de outrora também foram tempos comuns, com as suas contradições, grandes belezas e grandes horrores, mas houve algo naqueles dias distantes que merece uma certa nostalgia, que era  a prática de se fazer serestas, de se cantar para a pessoa amada a altas horas da madrugada.

Num cenário deslumbrante na frente do Teatro Maria Bonita, na Avenida Frei Antônio Curcio, que fica paralela ao Rio Parnaíba, ficaram reunidos todos os espectadores assistindo ao primeiro momento do espetáculo.Os espectadores foram abduzidos  pela simplicidade da proposta,  muito bem realizada por seus competentes atores e atrizes, com um misto de magia e recordação. Eles faziam o uso de  máscaras que potencializava as personagens e estimulava o estado de hipnose no qual a platéia foi colocada. A alegria de compartilhar da sensação de que se  pode amar é magnífica. Todos esperavam que tudo acontecesse ali. Mas, depois de alguns minutos, os mascarados foram diluindo o  espaço cênico rígido e puxando uma caminhada pela avenida.

Aquilo que parecia ser o óbvio, logo mudou em algo encantador. O público foi convidado a seguir junto com o grupo, numa caminhada de seresta, coisa de um passado distante, e do ponto de vista simbólico, um distante mais distante ainda, tal o embrutecimento de nossa sociedade hoje em dia. Neste tempo de pavoroso culto a comportamentos desumanos, é raro ver  coisas de grande delicadeza como cantar antigas canções de amor na rua.


 O grupo foi arrastando a platéia e cantando. Entre as primeiras canções a evocação de uma personagem daqueles  momentos, o boêmio:”Boemia, aqui me tens de regresso e suplicante te peço
a minha nova inscrição”; a letra de Nelson Gonçalves era cantada por todos como um hino daquele território. Teve um momento na Avenida Frei Antônio Curcio que o grupo parou para cantar para um homem que estava em um bar. O boêmio havia voltado para “sonhar em novas serenatas e abraçar seus amigos leais”.

A seresta continuou celebrando aquela rua com uma cantiga de domínio popular,”Se essa rua fosse minha, eu mandava ladrilhar com pedrinhas de brilhante para o meu amor passar”.

 Na esquina da Avenida Frei Antônio Curcio com a rua Rui Barbosa, explodiu o bolero Perfídia, a letra de Alberto Dominguez na versão de Lamartine Babo fazendo vibrar as aguas do rio Parnaiba. O cortejo amoroso entrou pela rua Rui Barbosa ainda sob a força daqueles versos:”Amei, como ninguém te amou querida. De ti o menor gesto adorei, esquecido da própria vida”.

Ao entrarmos naquela rua,  o grupo foi informado que naquele dia era o aniversário de Dona Iolanda, que morava ali e fazia alguns instantes tinha entrado para dormir. O grupo parou em sua porta  e começou a cantar:”A Deusa da minha rua”, de Newton Teixeira e Jorge Faraj:”A Deusa da minha rua tem os olhos onde a lua costuma se embriagar; nos seus olhos, eu suponho que o sol num doirado sonho vai claridade buscar...”

Na nossa imaginação toda a rua foi preenchida de luz, e todos os participantes daquele acontecimento viram que a janela daquela casa foi se abrindo, e de lá surgiram aqueles cabelos brancos, lindos e brilhantes como a lua que parecia descer para compartilhar conosco aquele momento. Eles cantaram Meu Primeiro amor, a guarânia famosa de José Fortuna e Pinheirinho Junior: “Você nem sequer se lembra de ouvir a voz de um sofredor, que implora por seu carinho, só um pouquinho do seu amor. Ela participou, emocionou-se e agradeceu, disse que aquele havia  sido o maior presente de aniversário que recebera em toda a sua vida.

 Na casa frontal a de Iolanda morava outra senhora chamada Amélia, que também saiu a rua e interagiu com o grupo que trouxe para a terra Lupicinio Rodrigues através de Felicidade:”A minha casa fica lá de traz do mundo, onde eu vou em um segundo quando começo a cantar. O pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começo a pensar”.

 Assim o grupo continuou o seu caminho. Lá adiante dobraram a esquina à esquerda na rua Sete de Setembro e encontraram um senhor em uma calçada, ele parecia esquecido de tudo, mas então o grupo de teatro  começou a cantar Chico Mineiro, uma antiga toada de Tonico e Tinoco e ele tomou animo e começou a cantar junto com o grupo:

“Fizemos a última viagem
Foi lá pro sertão de goiás
Foi eu e o Chico mineiro
Também foi um capataz
Viajemo muitos dia
Pra chegar em ouro fino
Aonde nós passemo a noite
Numa festa do divino
A festa estava tão boa
Mas antes não tivesse ido
O Chico foi baleado
Por um homem desconhecido
Larguei de comprar boiada
Mataram meu companheiro
Acabou-se o som da viola
Acabou-se o Chico mineiro”



Todos se emocionaram com a aquela cena magnífica, que somente o teatro é capaz de proporcionar. A arte teatral é este instrumento poderoso de construção da alma humana.

 O Grupo continuou com o seu périplo e foram vindo com mais canções. Fez a volta na Avenida João Luis Ferreira, a medida que caminhava mais pessoas se integravam ao grande grupo, parecia algo que somente acontece em momentos de pura magia construídas pela mão habilidosa de um escritor, mas ali em carne e osso, estava acontecendo, algo inesquecível. Por fim fizeram a volta e foram para Avenida Frei Antônio Curcio indo em direção ao Teatro  Maria bonita, onde foi finalizada a apresentação.

 Mas aqueles acontecimentos continuaram a ecoar nos corações. Naquela noite ninguém voltou para casa sem ter provado do romantismo, da beleza de amar, de festejar a vida. Foi um ato político importante nos lembrarmos da alegria, pois os inimigos da democracia, apostam na amargura e na violência. Nós temos que lembrar sempre que vale a pena amar, que tudo o que mais vale na vida é sentir-se bem ao lado de  pessoas que nem sabemos o nome, mas quando olhamos para os seus olhos vemos que ela está ali , compartilhando ao nosso lado da beleza de viver, que estamos todos ao lado da corrente mágica do  rio Parnaíba em seu fluxo, e tendo sobre as nossas cabeças as estrelas do céu esplêndido da cidade de  Floriano.

O Grupo de Teatro Público de Minas Gerais fez um ato de construção da realidade amorosa. Em tempos tão duros , nos  quais mal conseguimos achar graça em coisas puras, foi uma oportunidade singular  ver e participar de algo que congregou um verdadeiro espírito de  solidariedade  e camaradagem. Aquela seresta foi como um antídoto para a brutalidade de nossos dias. Valeu a pena.

Ficha técnica. Direção: Rogério Lopes. Dramaturgia: Larissa Alberti.Atuação: Diego Poça,  Larissa Alberti, Luciana Araújo, Marcelo Alessio, Rafael Bottaro e Rafaela Kênia. Direção musical e preparação vocal: Eberth Guimarães. Figurinos: Juliana Floriano. Criação e confecção de máscaras: Fernando Linares. Produção e realização: Teatro Público.

Saturday, June 16, 2018

BAILEI NA CURVA

Escrever sobre um espetáculo como Bailei na curva sempre dá um frio na barriga, é uma sensação de que voltamos no tempo, que fizemos uma viagem para um tempo ruim, que retornamos a momentos de nossas vidas que nos doí somente de dirigir o pensamento.

 O espetáculo Bailei na curva conta a estória de um grupo de amigos e de suas vidas, tendo como pano de fundo os acontecimentos históricos em torno do golpe militar  de 1964 até a manifestação das Diretas Já em 1984. Vemos como as  vidas daqueles jovens foram afetadas pelo desastre social construído pelos golpistas militares e civis que implantaram uma ditadura sanguinolenta e destruíram as possibilidades de desenvolvimento do Brasil por duas décadas. O roteiro, escrito em 1983, é de autoria do dramaturgo gaúcho Júlio Conte, que dirigiu a primeira versão, que foi construída originalmente pelo  Grupo Jeito que Dá, a partir de  improvisações dos atores Flávio Bicca, Márcia do Canto, Lúcia Serpa(hoje professora do Bacharelado em Teatro da UFPB), Hermes Mancilha, Regina Goulart e Cláudia Accurso.

Em teatro, costumamos muitas vezes dizer que existem espetáculos que são “datados”, cujos textos tem a particularidade de pertencerem a um momento que não se transmite às gerações futuras. Observamos isso na dramaturgia. São poucos os textos que sobrevivem ao escrutínio do tempo. Bailei na curva parecia ser um texto deste tipo. Na primeira vez que eu o vi, ele era  algo contundente que nos fazia ferver  a alma, tinha sentido. Depois os anos passaram e aqueles anos de horror pareciam terem ido para alguma gaveta da memória. Muitos acreditavam que jamais iríamos viver um retrocesso no processo democrático.

Aconteceram outras montagens, que tive a oportunidade de  ver, como a que foi feita por Cristovam Tadeu, diretor e humorista paraibano, falecido no ano passado, que fez a sua versão de Bailei na Curva em 1985. Mas era algo como um objeto de lembrança de  um tempo abjeto. Ninguém parecia crer na razoabilidade de que existiriam verdadeiros “comensais da morte” ,pessoas monstruosas  o suficiente para serem capazes de engendrar um retrocesso político e social que nos colocasse novamente à beira de caos semelhante a que foi inaugurado pela ditadura de 1964.

Então, quando nos demos por conta, estávamos novamente diante da montagem de Bailei na curva, e estranhamente o espetáculo parecia falar de algo que estava novamente à nossa porta, o desmonte do brasil como país democrático e o surgimento do lamaçal  da  história de pessoas de mentalidade fascista, que antes conviviam ao nosso lado como democratas, verdadeiras serpentes travestidas de gentilezas, túmulos caiados, como já lembrava um grande mestre da humanidade. Cá estamos de novo bailando na curva.

O Bacharelado em Teatro da UFPB com os alunos do 6º período, no semestre letivo 2018.1,  trouxe de  volta o texto Bailei na curva como trabalho de estágio profissional para atores e atrizes. 

A encenação optou pelo formato de arena do espaço cênico, um quadrado com corredores de saída em sua pontas, por onde entravam e saiam os atores e atrizes. 

O figurino foi uma roupa base de cor branca, feita de algodãozinho em cima da qual eram acrescentados detalhes e adereços. Os atores usavam uma placa de cor preta com letras brancas contendo o nome das personagens que estariam fazendo em alguma cena. Aquela placa lembrava aquelas que são usadas para identificar as pessoas nas delegacias e remeteram à lembrança de  uma placa famosa de Lula preso no inicio da década de 80. Lembrança inevitável uma vez que Lula é atualmente um preso político desta nova modalidade de ditadura que se inaugurou no Brasil, onde a lei não é aplicada de forma justa e imparcial, mas como instrumento político de um grupo  alinhado a interesses do mercado financeiro internacional.

Em um determinado momento, quando o espetáculo mostrou o ufanismo da propaganda da ditadura na década de 1970 através da grande mídia da época enaltecendo a copa do mundo de futebol, o espetáculo fez uma leitura transversal  de uma coreografia recente utilizada pelos apoiadores do golpe de 2016, que ficou conhecida como a dança dos patos golpistas, que ao contrário da dança da chuva, teve os poderes negativos de destruir um país e sua democracia. Os dançarinos da destruição foram evocados no palco e reconhecidos pelo púbico como agentes da maldade, da ignorância e do egoísmo.

As atrizes e os atores demonstraram o altíssimo nível de preparação do Bacharelado em Teatro da UFPB. Uma composição adequada de  personagens, que se alternavam entre os sete atuantes, que faziam indistintamente papeis masculinos ou femininos conforme a necessidade da cena com as partituras físicas e vocais bem construídas, sem caricaturas e apelos aos clichês teatrais já consagrados e conhecidos do público. Vimos atores e atrizes em cena dando vida a um dos períodos traumáticos da vida brasileira. O público riu, sentiu a dor e alegria de cada uma das personagens que vieram ao palco.


Na ficha técnica. Encenação de Heráclito Cardoso. Produção Aelson Felinto. No elenco: Aelson Felinto, Amanda Galvão, Leneeton Oliveira, Luiza Vieira, Luna Alexandre, Miguel Segundo e Valter Olivério. Direção de arte, Rayssa Medeiros. Cenário de Miguel Segundo e Heráclito Cardoso. Figurinos de Luna Alexandre.Concepção de iluminação: Aelson Felinto e Miguel Segundo.Preparação Vocal de Elthon Fernandes. Preparação corporal de Candice Didonet. Roteiro de audiodescrição: Larissa Hobby. Narrador audiodescritor: Marcelo de Oliveira Azevedo. Apoio de audiodescrição: Aelson Felinto Dyan Ushita, Maria Bethánia, Rafael Ângelo e  Moisés de Pia. Chefe do Departamento de Artes Cênicas: Adriana Fernandes. Coordenação do curso de Bacharelado em Teatro: Elthon Fernandes e Liria Moraes.  

Sunday, June 03, 2018

MAIS DO MESMO

No ultimo 31 de maio de 2018, no palco do Teatro Paulo Pontes, apresentou-se o espetáculo de dança Mais do Mesmo.

Havia os que esperavam o óbvio de um evento dedicado a conclusão de uma turma de uma escola de  dança como acontecia sempre.  Na apresentação do espetáculo Mais do mesmo, muitos espectadores esperavam que o evento resultante da conclusão do Curso de Licenciatura em Dança da Universidade Federal da Paraíba fosse algo parecido com os festivais, que são tradicionalmente apresentados no fim de cada ano civil pelas escolas de ballet, que são belos e  agradáveis e tem por objetivo mostrar algo para os familiares verem e fotografarem. Esperava-se algo então que se parecesse com a dança daqueles festivais,algo desligado da realidade social, aquilo que o pensamento tradicional admite como dança.

 Mas o conceito de dança não se restringe apenas a um gosto estético, nem a uma modalidade consagrada pela indústria cultural. A dança que tantos vêem como apenas algo superficial, talvez devido a banalização que é feita através de bailarinas exploradas e vulgarizadas por programas de televisão nos domingos a tarde. A dança é algo mais profundo, uma arte e uma ciência, que é estudada  inclusive no âmbito da pesquisa espacial na pesquisa de movimentação de bailarinos em situações de microgravidade(1).

 Deixemos as questões acerca da teoria da dança para outra oportunidade e voltemos ao espetáculo. Assim, quando o público adentrou a platéia do teatro Paulo Pontes foi recepcionado com um vídeo que mostrava sapatos amarrados em fios de energia elétrica; uma coleção de sapatos que foram atirados por pessoas naqueles fios urbanos construindo um museu a céu aberto. Os pés  contém o primeiro símbolo da dança,o ponto de contato da criatura humana com a terra e naquela imagem estava a chave de que os nossos pés estariam pisando um outro tipo de chão.

É comum que se peça ao espetáculo de dança que todos estejam no mesmo tempo-ritmo, faz parte até do senso comum, há uma música externa, seja um grande balé de um compositor clássico, ou uma seleção de canções da Música Popular Brasileira. Isto é algo presente nas coreografias de grandes grupos de dança; mesmo que a música seja original, o corpo de bailarinos tem um mesmo tempo-ritmo, isto é, seguem uma partitura única, ainda que com muitas vozes. No espetáculo de dança, Mais do mesmo, vemos uma polifonia de corpos, cada qual com sua própria melodia e ritmo, trazendo para a cena algo da  vida real tal como ela é. A excelente música original composta por Esmeraldo Marques não está lá para ser uma partitura que unifica, mas antes um emaranhado de fios, onde os vários sapatos, sandálias e sapatilhas são atirados para flutuarem sobre a cidade.O video que era projetados simultaneamente tornou-se também um bailarino etéreo e parte do elenco.

O espetáculo Mais do Mesmo tem quatro  episódios todos livremente inspirados no livro de Elisa Lucinda “Parem de falar mal da rotina”, sob a assessoria dramatúrgica de Carolina Laranjeira. No principio o diretor subiu ao palco para dar um aviso, mas o que fez foi ir buscar o fio condutor da trama para enreda-lo pela platéia. O episódio “Fios” tratou das relações humanas. No episódio “Babel” tivemos a luta pelo diálogo dentro de uma teia de intenções e pós-verdades. No  episódio “Mesmo?” Se questionou a passividade diante da rotina diária. No episódio “Sapatos” as pessoas lutavam para terem direito a sua história; vimos no corpo de Jessika Andrade, por exemplo, os espasmos de agonia para estar no mundo, lutando pelo direito de ser quem é. Ao final, da mesma forma que iniciou, o diretor subiu ao palco levando consigo os espectadores para a convulsão final com a participação de todos os dançarinos.


Mais do mesmo, foi resultado da prática de  criação artística em dança, que foi desenvolvida em grupos sob a orientação e direção geral de Guilherme Schulze e foi livremente inspirado no livro de Elisa Lucinda,Parem de falar mal da rotina .Música original de Esmeraldo Marques.Vídeo design: Paulo Rocha. Iluminação: Fabiano Diniz. Câmera e edição(Fios): Rosilvaldo Silva(Erre). Produção-executiva: Juliana Costa Ribeiro. Assessoria para criação de figurinos: Paula Coelho. Assessoria para criação dramaturgica: Carolina Laranjeira.Arte Gráfica: Jessika Andrade. Elenco: Cristina Resende, Danielle Caldas, Dayse Torres, Emiliano Lopes, Érica Bernardo, Ewellyn Lima, Jack Keysy, Janielle Nálija, Jéssika Andrade, Jonas Flex, Karen Cabeluda, Kilma Farias, Laís Luah, Lucas Dias, Maeza Donnianni, Maíra Rodrigues, Marlyson Barbosa, Micalene Cavalcante, Nady Rodrigues, Rafael Sabino, Rodrigo Almeida, Taciana Negri, Veronica Valentim.






NOTA

1 - DUBOIS, Kitsou. Analogy between training for dancers and problems of adjustment to microgravity: an evaluation of the subjective vertical in dancers. Acta astronautica, v. 25, n. 8-9, p. 605-613, 1991.

Monday, May 28, 2018

QUARTA NA MUAC

A IX Mostra Universitária de Arte e Cultura é um espaço de extensão do Departamento de Artes Cênicas da UFPB que congrega as licenciatura em Dança  e Bacharelado e  Licenciatura em Teatro, promovendo a integração e construindo algo que transcende os muros da universidade, oferecendo espetáculos, oficinas e debates, não que não existaM já outras atividades que fazem este intercâmbio, mas a MUAC constitue-se atualmente numa das mais importantes ferramentas pedagógicas, é o momento em que se vê os alunos pondo a mão na massa, criando um clima de engajamento, de vontade de participar, de fazer a diferença. Um dos pontos belos é a integração entre os vários períodos letivos, de dança e teatro, novatos e veteranos trocando experiências.

Na, quarta-feira,23 foi somente mais um dia intenso de uma programação que havia começado na segunda-feira, dia 21 de maio de 2018. Vou escrever sobre o dia 23, sabendo que ele foi somente um pequeno galho de uma imensa árvore.

A programação começou cedo, às 7 horas com a Oficina de Tai Chi Chuan ministrada por Alice Lumi no espaço da Capela Universitária da UFPB.

 Depois, às 9 horas, aconteceu a Oficina Pedranças ministrada por Maeza Donnianni. Segundo ela a sua oficina trabalhou “a Metáfora das pedras na sociedade e a paragem na dança, o estudo dos atos parados, a não-dança da dança contemporânea, a investigação dos objetos sem vida em um ato de de protesto minimalista”.

O turno da tarde começou com apresentação de um trabalho desenvolvido na disciplina Estudos Avançados 3 da grade curricular do Bacharelado em Teatro da UFPB sob a mediação do Professor Ricardo Canella. Segundo Canella, nesta disciplina se estudou o solo-performance segundo as diretrizes do Ator Essencial proposto pela performer Denise Stoklos, utilizando-se das técnicas da mímmica como base para que cada aluno fizesse algo que articulasse a sua vivência histórica e social.

A paixão do palhaço , foi apresentado pelo ator-aluno João Fernandes, também autor do texto.Numa cenografia que evocava uma tenda circular que servia de camarim para um palhaço, onde havia uma mesinha, um espelho e objetos pessoais, de um lado uma bacia com água e do outro uma cruz grande.O palhaço despiu-se de  sua indumentária enquanto lamentou a sua tristeza e o seu fracasso. Não teve a intenção de provocar riso. Apenas revelou ao público a face desconhecida daquele que deveria ser tão alegre  quanto a personagem que encantava o público no picadeiro.

Em seguida apresentaram-se os alunos da disciplina Prática de interpretação de Origem popular, onde foram estudadas algumas técnicas da  comedia dell’arte, o uso de máscaras, a construção de tipos e a improvisação teatral. Foram apresentadas as seguintes cenas curtas: Cena1 - Vai para o buraco - com Ana, Sofia, Felipe e Guilherme; Cena 2 - O ballet - com Viviane, Andreia e Dario; Cena 3 - Departamento de fraudes,desvios e propinas - com Tatiana, Ana, Jordy e Vinicius; Cena 4 - Pruuu - com Alexandre, Luana e Sofia; Cena 5 - Sala de aula - com Raissala, Viviane, Andreia e Raniele; Cena 6 - Sobe e desce da bolsa de valores - Com Victor, Vinicius, Igor, Luana e Arthur; Cena 7 - Frankstein - com Alexandre, Aninha,Dario e Sofia; Cena 8 - Alunos dos cursos importantes de medicina e engenharia - Luana, Vinicius e Jordy; Cena 9 - Curso de teatro e seus problemas - Tatiana, Alexandre, Raissala,Evandro, Raniele e Jordy.

Em seguida tivemos  o solo Payaso, com texto de Joelton Barros, inspirado na música de Flaira Ferro, “Me curar de  mim”. E logo após em outra espaço o Experimento Nº 1 com Raissa Medeiros.

A grupo Duo Talu apresentou a coreografia Máscara em construção com Thaysmary Ribeiro e Luana Aires. As duas bailarinas usavam mascaras primitivas, no inicio uma delas deitada no chão de madeira da sala; a outra entrou evoluindo pelo publico, interagindo e provocando. Elas fizeram emergir um sentimento de coisa antiga e tribal, tendo ao fundo em um momento a música de Mestre Ambrósio,Esperança(na mata eu tenho) que cantava “na madrugada se ouvia o som da mata se abrindo”.

A Cia Paralelo de dança apresentou a coreografia Horizonteabismo, com Milla Maggi e Débora Reges. Foi de uma força carnal, ela cegas, com seus corpos em uma luta orgásmica, percurtindo o chão com os seus  corpos e percutindo-se a si mesmas como instrumentos de um combate amoroso cheias de prazer e dor.Puxões de cabelo, um arrancar-se a pele para atingir o ser da outra, para ter a outra como parte de  si mesma. Duas palavras: Chama e Abismo.

Em Seguida tivemos: Modele em mim o seu você com Raissa Medeiros e Victor Lispector; Seu zé com Neto Ribeiro e Ama Antes com o Coletivo Nós.

A MUAC tem sido um grande momento de  encontro e de renovação das energias criativas em um contexto tão desfavorável  para as artes no Brasil atual.

TRAVESSIA

O I Festival de Monólogos Femininos Mulheres de Maio realizado pelo Núcleo de Teatro Universitário da Universidade Federal da Paraíba encerrou-se no último dia 24 de maio de 2018, às 20 horas, com o espetáculo Travessia com a atriz Kassandra Brandão, tendo na platéia um público que resistiu ao caos da falta de combustível provocada pela desastrosa política de preços implantada pelo Governo Federal para agradar o mercado financeiro internacional.

O público aguardava do lado de fora do teatro , quando foi convidado para entrar e sobre  o palco do Teatro Lima Penante estava arrumado um circulo de cadeiras em volta de um arranjo cenográfico com folhas secas e alguns objetos; na grande cortina de fundo(rotunda), estava sendo projetado um vídeo de uma senhora idosa que dava um depoimento. O público acomodou-se ao redor. A luz apagou-se e a atriz adentrou o circulo. Ela falou da dificuldade de desapegar-se das coisas e como a vida era feita de escolhas difíceis.

Em sua narrativa pediu a um espectador que retirasse um objeto de  um pequeno baú, no qual havia muitas coisas, cada uma carregada de memórias. São nos objetos que deixamos gravados os pequenos pedaços de nossa vida. É neles também que moram as nossas amarras; são muitas vezes as chaves de nossa prisão interior.

 O espectador teve o baú aberto diante  de si, e lá encontrou algumas bonecas e outros ítens, mas deteve-se em um troféu com o seu aspecto reluzente, tendo na base uma formação metálica que lembrava uma rosa estilizada.

 A atriz pegou aquele objeto, respirou fundo, e disse que aquele era um troféu de quando havia participado de um concurso de beleza em sua cidade, Juazeiro do Norte. Ela lembrou que havia sido a sua mãe que a tinha  inscrito na competição. E que logo em seguida começaram os preparativos, que foi muita maquilagem, roupas e todos os investimentos decorrentes  de uma empreitada dessa natureza. A atriz confessou que depois que se viu no espelho toda pintada sentiu-se horrível, mas que ao final do concurso tirara um terceiro lugar, e que aquilo era algo a se valorizar, pois o primeiro lugar hoje era uma modelo internacional.

 A atriz então começou a nos conduzir por sua Travessia, que foi executada pelo desapego de três objetos simbólicos: um violão, uma velha escrivaninha e um abajur. Do violão ela contou como se encantou pelo instrumento, e como foi aprendendo algumas notas, três acordes que ainda  lembrava, mas que ficara somente  nisso. Não foi muito difícil desvencilhar-se do instrumento, apesar da carga emocional que ele possuía.

Depois a atriz narrou um fato de sua infância, de como cortou os seus cabelos que eram compridos quase alcançando a sua cintura. Revelou que o seu pai obrigava todas as suas filhas a terem um cabelo grande, pois tinha a opinião formada de que “mulher tinha que ter cabelo grande”, e prometia uma grande surra em qualquer uma de suas filhas que o cortassem. Ela, então, certo dia quando estava em casa de uma tia, usando as tesouras de costura, cortou o cabelo deixando-o muito curto. Ela acrescentou que amarrou um pano na cabeça para esconder o feito de seu pai. Chegando em casa justificou que estava usando aquele pano para remédio contra piolhos, mas o pai descobriu e deu-lhe uma grande surra. As suas irmãs diante da violência do genitor também cortaram os seus cabelos. A  perda dos cabelos fora como uma sinalização da posse de  si mesma e um desapego da dominação do outro sobre o seu ser.

Ela contou a estória de  sua velha escrivaninha que usava para escrever  o seu  diário e também estudar, mas o móvel foi ficando velho, sendo carcomido pelo tempo e pelos cupins, ficou velha, morreu. Ela fez o enterro simbólico daquele objeto promovendo mais uma etapa de  sua Travessia, preparando-se para enfrentar-se cada vez mais a si mesma, tendo o luto como uma necessidade mas não um ponto de parada. Ela seguiu em frente.

Ela propôs à platéia um jogo chamado hilo rojo, fio vermelho, no qual as pessoas devriam dizer uma qualidade e um defeito e jogava o novelo para outra pessoa da platéia. Assim, os espectadores foram tecendo uma teia sobre o espaço cênico com qualidades e defeitos de cada um. Em seu desnudamento ela foi também desnudando as pessoas que foram também mergulhadas em sua travessia, trazendo de suas memórias também os objetos simbólicos que se constituiram nas marcas prisionais de cada individuo.

 Quanto ela trouxe a lembrança de  sua primeira experiência sexual que foi duramente  criticada pelo entorno familiar, então o músico que a acompanhava ao vivo, tornou-se também um ator coadjuvante, e  amarrou-a com aquele fio vermelho, proferindo agressões verbais: “Vadia, rapariga, foi tudo sua culpa”. Ela então ela explodiu, libertando dos fios e expulsando aquela força masculina opressora de sua cena.

E então assistimos a passagem pelo ultimo objeto: um abajur, que era  um objeto simbólico das mulheres da sua familia, que continha nele as regras  de submissão de todas aos costumes patriarcais tradicionais. Aquele objeto morreu na mão dela, ela o quebrou e assim fez a sua travessia libertando a sua imagem do tradicional papel feminino. Ela era dona do seu destino e de seu corpo.

A dramaturgia é de Kassandra Brandão com a colaboração de Joht Cavalcanti. A música ao vivo é feita por Matteo Ciacchi.A iluminação é de Fabiano Diniz. A direção é de Celly Farias.A produção é do Grupo Graxa de Teatro.

RAZÃO PARA FICAR

No dia 21 de maio de 2018 apresentou-se no I Festival de Monólogos Femininos Mulheres de maio o espetáculo Razão para ficar. Não há coisa mais terrível do que o silêncio daquelas que foram colocadas à margem da normalidade e abandonadas em manicômios. Quando os espectadores entraram no Teatro Lima Penante deram com a visão de uma mulher sentada em um banquinho dentro de uma gaiola, um cubo de arestas metálicas. Dentro dele um micromundo: uma escrivaninha, em cima uma tangerina e uma maçã, ao lado uma geladeira, e ao fundo uma pia com água corrente.

No entanto, paradoxalmente, aquele cubo era uma libertação de algo ainda  mais terrível. Tratava-se da representaçção de uma SRT, ou um serviço residencial terapêutico implantado no Brasil a partir de ano 2000 como parte da luta antimanicomial. Conforme o manual do Ministério  da Saúde: “O Serviço Residencial Terapêutico(SRT) ou residência terapêutica ou simplesmente "moradia" ­ são casas localizadas no espaço urbano, constituídas para responder às necessidades de moradia de pessoas portadoras de transtornos mentais graves, institucionalizadas ou não”.

Razão para ficar foi construído pela atriz Ana Marinho a partir da leitura da tese de doutorado da Professora Thalyta Lima: As Oito Flores do Alto do Céu no Jardim da Desinstitucionalização, que analisa o depoimento  de oito mulheres usuárias de uma SRT. São as falas daquelas mulheres que construíram a personagem que vimos em cena, como tantas Clarices, Adélias e Marias. Há também trechos de Clarice Lispector, poemas de Adélia Prado e Lisbeth Lima.

 Uma mulher olhava para os espectadores como se fôssem transparentes. As pessoas temem ser  transparentes. Durante longos minutos fomos lentamente sendo acostumados àquele ritmo de viver, como se tivéssemos que ir sendo sintonizados naquela freqüência. As pessoas são como se fossem estações de radio que transmitem numa freqüência, e temos que nos sintonizar para nos encontrarmos.  Foi assim que a atriz Ana marinho foi levando o publico  para aquela sintonia. Poderíamos dizer, a princípio, que era um espetáculo sobre a loucura, mas não, somente se podia perceber a normalidade a partir de nossa própria medida de loucura e ali estava uma pessoa como qualquer outra.

 O espetaculo sabiamente nos levou primeiramente a um novo patamar de dialogo e somente depois, fomos apresentados a personagem. Razão para ficar é um espetaculo que primeiro abriu a porta do ser, como o buraco na raiz da arvore no qual caiu Alice para o seu mundo das maravilhas. Lá naquele outro mundo e já conseguindo estar com a personagem fomos conhecendo a vida de  daquela mulher, e ficamos sabendo que ela habitava uma casa de acolhimento de pacientes de um hospital psiquiátrico, que no movimento antimanicomial foram colocadas para morar em uma comunidade junto com outras pacientes.

 Temos acesso a sua história, ao seu desamparo e a sua solidão - grande marca do ser - a solidão e o abandono. Quantas não foram desprezadas pela familia e jogadas nesses lugares convenientes de negação do outro?

Ela disse de sua saudade da familia, até  desejava revê-los mas não conseguia mais ver o mundo além daquele universo, os dias apenas passavam, nela explodia o desejo, a sua sexualidade que fora contida de forma brutal. Em um determinado momento ela mostrou o seio para a platéia demonstrando que ainda estava ali uma bela mulher, não uma coisa , um elemento de estatística dos serviços de saúde, mas um sujeito desejante de ser  amado.

Ela levantou-se a abriu a geladeira, coisa que já tinha feito tantas outras vezes. Sentou-se ali diante das prateleiras e olhou. Os espectadores ficaram olhando através dos olhos  dela, indo fundo naquele lugar estranho, imaginando o que ela via; fantasiaram, além do frio ar que despencava do eletrodoméstico,o sentimento de como ali se aprofundava a criatura em seu abismo existencial.Uma geladeira, também símbolo de conservação, de fartura, de conforto. Talvez ali ela se lembrasse de sua vida de pobreza antes de ser arrebatada pela loucura. Mas é também na geladeira em outro instante que ela acessa o sonho, que saindo de lá projetado em luzes muticoloridas a envolve como um ectoplasma. Também da geladeira ela retirou uma faca, que fez os espectadores gelarem o sangue, e de lá também uma melancia, que foi partida em bandas, que ela comeu numa ferocidade canibal. Parecia que todas as coisas poderiam surgir daquela geladeira como objeto mágico e intermediário, como uma porta para outras dimensões. Ela sabia que aquele casa que lhe oferecia todos as oportunidades de  fuga, era um lugar de liberdade, pois o mundo lá fora além das portas de sua residencia é que era a prisão. A porta da geladeira representava a passagem para um mundo de  liberdade que não existe de verdade no mundo real. Os espectadores sentiram aquela dor, pois sabiam que também viviam todos prisioneiros de não sei quantas mentiras.

 Ninguém sabe qual foi a gênese de sua doença, somente que ali, pelos motivos da ordem institucionalizada, ela fora levada pela policia e ali jogada para sempre. Ela foi refletindo  sobre a sua condição como ser vivo, como uma criatura, mas nada ali parecia ter saída.

Razão para ficar tem dramaturgia de Ana Marinho. Direção João Paulo Soares. Cenografia de Maria Botelho. Figurino de Vilmara Georgina. Iluminação de Fabiano Diniz.  Produção Dudha Moreira

Sunday, May 27, 2018

VIOLETAS

No último dia 19 de maio de 2018,no Teatro Lima Penante, do Núcleo de Teatro Universitário da UFPB, às 20 horas, apresentou-se o espetáculo Violetas dentro da programação do I Festival Feminino de Monólogos Mulheres de Maio. Faltaram lugares. Foram colocadas cadeiras extras.
Quando a luz se apagou, uma canção invadiu a platéia, uma voz limpa e melodiosa que embalou todos os espectadores. Vindo pela sala apareceu a atriz cantando, por momentos todos se questionaram se aquela era a voz dela ou alguma gravação perfeita. Ela subiu para o palco e então todos se renderam à competência e beleza de  Mayra Montenegro dando início ao espetáculo Violetas.

A apresentadora de um programa de rádio surgiu no palco, evocando a presença da grande empresa multinacional Esso e sua influência no Rádio Brasileiro nas décadas de 40 a 70. Começou então um programa dedicado às donas de casa com dicas para cuidar de seus maridos. Aquele programa era uma doutrinação machista que reservava à mulher uma posição subalterna, sempre dependente do homem, um animal doméstico com as funções de  procriação e serviços, dos sexuais até limpeza, cozinha e criação dos filhos.

Nos intervalos deste programa foi sendo apresentado a história de Dona Vilma, uma antítese ao modelo pregado pela mídia radiofônica predominante. Ela não se conformava com o papel que lhe haviam reservado tradicionalmente. No palco, fomos sendo apresentados ao mundo dela através do depoimento de outras personagens, que  foram fisicalizadas com muita precisão pela atriz, através de uma mímese corpórea milimetricamente executada. A beleza desta técnica, é que ela não é uma caricatura de  outra pessoa, e sim, uma partitura física e vocal que descreve com perfeição o outro. A atriz é como um instrumento que toca esta  partitura.

Descobrimos a certa altura que a personagem da qual se fala é a avó da atriz. Foi interessante ver como ao falar de  algo tão pessoal, o espetáculo transcendeu para a abordagem de temas universais. A velha e constante luta pela igualdade de direitos continua viva. Hoje, nos assustamos com reaparecimento de uma mentalidade fascistas tão retrógrada e perversa como a difundida pelo programa de Rádio patrocinado pela Esso. Há mulheres, hoje, que apóiam aquelas idéias de submissão e anulação de si mesmas. Mas, graças a Dona Wilma, não a sua neta e sua descendência.

Violetas conduz o público por uma estrada de memórias dolorosas, abrindo feridas, conectando as forças profundas do ser em luta por uma existência digna. Apesar do clima aparentemente humorístico construído pelo programa de rádio, o público foi sendo impactado pelo absurdo de algumas proposições, ou dicas para a mulher recatada e do lar. O que era riso, tornava-se um gosto amargo. Era como se todos estivessem sendo desnudados de suas máscaras sociais e aparecesse a realidade do consentimento passivo e hipócrita ao pensamento misógino que tem mostrado a sua cara.

 Violetas funcionou como uma bomba relógio, as pessoas riam das falas da apresentadora do programa de rádio como se fossem piadas grosseiras e, logo em seguida, se viam ridículas diante do que realmente estava acontecendo.

Violetas tem também um caráter documental que foi muito bem costurado pela direção, sem permitir que fosse algo hermético apenas acessível a um grupo restrito de familiares ou amigos próximos. A construção de blocos como páginas de  um velho álbum que foi sendo revelado ao público sem pieguice, sem lugares comuns. Parecia um conto de fadas.

O espetáculo é muito bem construído. As cenas fluíram uma após a outra, trazendo a cada momento uma expectativa do que viria a seguir, como um riacho que se encontra  com o fluxo de um outro rio, e somando-se a este aumenta a corredeira. O público tinha a sensação de que estava indo para uma cachoeira. E assim foi, quando no final  uma projeção de imagens de Dona Wilma apareceu ao fundo numa seqüência de imagens biográficas que culminaram com a presença da própria atriz, e tudo foi como as águas de uma cachoeira caindo e molhando a todos.

Violetas é um trabalho de natureza antropológica.A dramaturgia é de Mayra Montenegro, construída a partir de suas memórias e da pesquisa com pessoas que  conviveram com Dona Vilma.Direção: Raquel Scotti Hirson (Lume Teatro).Assistente de direção: Eleonora Montenegro. Dramaturgia: Mayra Montenegro. Direção Musical: Mayra Montenegro e Eli-Eri Moura. Cenografia: Rogério Ferraz e João Marcelino. Luz: Eleonora Montenegro. Figurinos: João Marcelino. Produção: Marcelina Moraes da Amora Produções.

Violetas encantou o público do I festival Feminino de Monólogos Mulheres de Maio recebendo o prêmio do Juri Popular Trofeu Zezita Matos.

Tuesday, May 08, 2018

O CORPO QUE ARDE

A linguagem da performance esteve presente na VIII Jornada de Pesquisa em Artes Cênicas promovido pelo Departamento de Artes Cênicas da Universidade Federal da Paraíba, em sua programação de atividades culturais.

 Na noite da quinta-feira, dia 2 de novembro de 2017, no Teatro Lampião, que é uma ruína de um teatro inacabado, com as suas paredes altas e tendo o céu por teto, a lua vindo participar como recurso de iluminação e uma platéia disposta a sentar no chão de concreto, seguindo a programação Espaços de Sobrevivência, apresentou-se a performer Letícia Argolo com o trabalho intitulado O corpo que arde.

 A platéia foi surpreendida pela manifestação de dor por tantos jovens assassinados. A performer informou que morre-se no Brasil mais do que na guerra da Síria; nos dois lugares a presença do horror. No palco coberto por um linóleo preto um mapa do Brasil desenhado com tinta verde e amarela e espalhados pelo chão grandes manchas de tinta vermelha.

 Na boca do espaço de cena, escritos com giz no chão o nome de jovens, que haviam sido assassinados ora pela truculência policial, ora pela violência do preconceito e da misoginia.

 Ao fim da primeiro momento da performance, quando as luzes se acenderam, a platéia ficou imóvel, nem aplaudiu, nem se moveu, então a performer tomada por este silencio doloroso, iniciou uma segunda fase do trabalho - o sangue de uma vasilha de tinta manchou todo o palco, o corpo semi-desnudo estava vermelho, a platéia emudecida.

 Quando tudo terminou, uma espectadora que estava na platéia, desatou um choro fino confessando - “eu sei o que é isso”. Em um terceiro momento a performer perguntou a platéia se ela queria dizer algo; um homem perguntou se a performer tinha tido alguém próximo assassinado pela policia. A performer confirmou que sim, ele também disse ter tido a mesma experiência. Sucederam-se muitos depoimentos espontâneos relatando casos de violência e assassinatos de jovens.

 A performer a passou a pedir que levantasse a mão os que conheciam de perto a violência policial, se conheciam alguém, se sabiam o que era a violência contra a mulher, os negros, os homosexuais. Viu-se uma dança de mãos que se erguiam e baixavam. Ao final ela sentou-se calada num recanto e aquela dor imensa tomou conta de todos.

 A performance tem este poder, de ser uma linguagem transversal, com a capacidade de ir direto às emoções. Antes da platéia chegar, pude conversar com a performer sobre a sua concepção e como o trabalho havia sido pensado.

Ela me disse que tudo havia começado da necessidade de dizer algo sobre a dor das familias, de amigos que perdem pessoas para a violência. Perguntei o porquê da performance, ela me esclareceu que há algo na linguagem humana que se perdeu, a violência foi banalizada; ver uma cena de violência tornou-se algo incorporado a alimentação com os programas de televisão que destilam horrores nos horários das refeições. Hoje se come o feijão com arroz e sangue. As pessoas se acostumaram ao que é terrível e inaceitável, basta ver o modo como se exacra os direitos humanos.

 Ela argumentou que uma saída para o vazio das palavras era ir por um caminho que levasse a platéia a sentir, que se houvesse uma saida para tudo isso, seria a capacidade da pessoa de se colocar no lugar do outro, de poder sentir a dor do outro.A performance teria esta força.

Ela citou Antonin Artaud para justificar a expressão deste encontro cruel com a vida humana e suas dores.

E também falou da inspiração que tinha da leitura dos trabalhos desenvolvidos por Grotowski, da necessidade de ir além do teatro convencional.

De fato, pudemos assistir a eficácia de seu trabalho conduzindo a todos ali para um tipo de contato pavoroso e cruel com o sofrimento. Dentro das ruínas do Teatro Lampião protegidos pelas suas altas paredes ficamos imaginando  que  mundo era esse que estava lá fora, que a beleza da lua e das estrelas que tomavam o céu também abrigavam  a contradição da bestialidade humana.

Era perceptível a grande emoção que tomou a todos. Possuídos por este clima a platéia se retirou devagar caminhando como se tivesse sido quebrada em seu conforto e ilusão de um mundo que vende a aparência de que tudo está no seu lugar.

 A performance com o seu poder de abrir-se em rede conectando-se com tudo tornou possível esta construção de realidades desabando o mundo das utopias. Estas performances devem ser mais vistas para que possam comover alguns corações endurecidos e curar alguns zumbis desta civilização contaminada pela cultura superfícial da grande mídia.

Friday, May 04, 2018

IVAN, O DEFEITUOSO



No dia 30 de novembro de 2017 o VI Festival Nacional de Teatro do Piauí , que realizou-se na cidade de Floriano, apresentou um espetáculo deliciosamente “terrível”. Vou começar pela descrição dos fatos: fomos orientados que o espetáculo iria começar uma hora antes no Teatro Maria Bonita. Após o almoço no Restaurante Velho Monge, ficamos vagando pela calçadão do Rio Parnaíba, curtindo o sorvete e o calor intenso esperando o momento de ir conhecer Ivan , o defeituoso.

Próximo às 14 horas fomos para o hall do teatro, onde nos encaminharam para a platéia; imaginávamos o que poderia acontecer, pois as atrizes estavam deitadas no palco e a vara de luz interna das contra-luzes estava baixada quase rente ao palco. Ficamos nas cadeiras curtindo o ar condicionado.

Pensávamos será que o espetáculo já começou? Imaginávamos que fosse algo parecido com um Live Action do Role Play Game, ou coisa assemelhada. Lá pelas tantas, subiram ao palco dois atores trajando um figurino base de cor preta; começaram avisando que eles não eram atores do espetáculo, que estavam ali para nos dar algumas regras. A primeira era o preenchimento de um questionário com perguntas sobre a saúde, em quantas pessoas confiávamos naquela plateia, quantas pessoas conhecíamos, e até o tipo sanguíneo.

Depois nos pediram para voltar para o hall do teatro e fizéssemos duas filas, e que fossemos colocando todos os objetos, bolsas, celulares e garrafinhas de água em saquinhos personalizados; cada espectador recebeu uma numeração .

Em seguida todos os espectadores foram vendados e conduzidos pela rua até um ônibus que estava estacionado próximo; isto por si, já representou um happening muito interessante para a população da cidade que assistia ao acontecimento. O trajeto foi uma experiência sensorial fantástica. Quando o ônibus parou, as pessoas tentavam advinhar onde estávamos, uns diziam que perto de uma rodovia federal, outros diziam que havíamos voltado para o mesmo lugar.

Fomos todos conduzidos até o Teatro da Cidade Cenográfica de Floriano, levados para dentro do teatro e colocados sobre o palco. A música criava um ambiente associado a um clima de fantasia. Neste momento, as irmãs Amanda e Letícia começaram a falar de Ivan, o defeituoso, dando informações de que o seu irmão havia matado os seus pais.

Os espectadores ainda vendados foram submetidos a algumas experiencias sensoriais de pequenos toques no corpo e empurrões, primeiramente pelas irmãs e depois pelo próprio Ivan, que soltou-se e circulava entre nós.

Depois As irmãs pediram que retirássemos as vendas. Todos estávamos livres para irmos para a plateia, somente uma espectadora, Tércia Maria, da cidade Teresina, do Grupo Tear de Teatro, ficou presa em correntes dentro da jaula onde estava acorrentado Ivan, o defeituoso.

Do ponto de vista habitual todos achávamos que o espetáculo estava começando o seu ciclo normal , e as irmãs Amanda e Letícia, deixaram claro que apresentavam o irmão como atração de um circo de horrores. Através da pessoa que havia ficado presa colocaram a discussão da solidariedade, já que ninguém na plateia teve qualquer iniciativa de ir soltá-la; colocaram a discussão da confiança de um no outro, perguntando aos espectadores se confiavam e conheciam a pessoa que estava sentada ao lado na plateia.

Em um momento de clímax elas soltam Ivan para que o mesmo venha comer numa mesa próxima ao publico. Servem-lhe linguiças cruas, que são trinchadas com violência. Depois os pedaços são atirados no público. Em outro momento colocam nesta mesa um pedaço de carne crua com osso, que é comido pelas atrizes, por Ivan, e oferecido também aos espectadores. Alguns aceitaram comer da carne crua.

As irmãs vendem sempre a violência de Ivan associando a sua deformidade a uma coisa ruim. Vamos percebendo que Ivan é uma criatura dócil apesar da sua aparência terrível, enquanto a maldade mesma é promovida pelas irmãs. Ao final as Amanda e Letícia saem conduzindo a espectadora para fora provavelmente para matá-la, enquanto Ivan coloca um vaso de flores sobre a mesa revelando a sua natureza pacífica.

Aprendemos que muitas vezes quem vende e pratica o mal é exatamente a carinha bonitinha que apregoa aos quatro ventos as suas bandeiras pelo bem, mas que na surdina são promotoras do mal em si.

Fomos vendo a cada cena caírem as máscaras daquelas irmãs que falavam da luta contra o mal somente da boca para fora. Depois os espectadores foram conduzidos para a porta do ônibus onde por sorteio foram sendo devolvidas os seus pertences pessoais. Ficamos diante de uma metáfora poderosa da condição brasileira e do mundo. Na volta para o hotel Ivan continuou povoando as nossas conversas . Não pudemos de deixar de fazer um paralelo com esta onda conservadora fascista que invade o Brasil capitaneado pelas caras bonitinhas por fora mas carregadas de ódio por dentro.

O espetáculo foi escrito e dirigido por Thiago Barba. No elenco: As competentes atrizes Suzi Daiane, como Amanda, irmã mais velha de Ivan e Maria Falda, como Natasha, irmã mais nova; Thiago Barba excelente como Ivan. Trilha sonora Jefferson Bitencourt. A produção foi da Cia Avenida Artística Lamparina de Jaraguá do Sul, estado de Santa Catarina.

O diretor disse que gostava de cinema de horror e inspirou-se na trilogia Lugosi, um espetáculo dirigido por Jefferson Bitencourt. Também fez referencias ao filme Freaks(Monstros) de 1932. O diretor é um músico que cursou Artes visuais na universidade e depois dedicou-se ao teatro, segundo ele as vicissitudes da vida foram conduzindo-o ao mundo do espetáculo teatral.

No VI Festival Nacional de Teatro do Piauí foram indicados para os prêmios de melhor maquiagem com Lucas Davi, e melhor atriz com Suzi Daiane e ganharam o prêmio de melhor figurino, com Lucas Davi. Foi um espetáculo que encantou o público.


Thursday, May 03, 2018

TEKOHA, RITUAL DE VIDA E MORTE DO DEUS PEQUENO


No dia 30 de novembro de 2017, no VI Festival Nacional de Teatro do Piauí que foi realizado na cidade de Floriano, apresentou-se o espetáculo Tekoha, Ritual de Vida e Morte do Deus Pequeno, em frente ao teatro Maria Bonita, no Cais do Porto, Avenida Beira Rio, às 20 horas. O espetáculo foi produzido pelo Grupo Teatro Imaginário Maracangalha, da cidade de Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

O teatro de rua parece ser a coisa mais fácil das artes cênicas, trata-se da recuperação de algo antigo escondido dentro de nosso ser, trazemos assim toda a tradição dentro de nós. Outra coisa é que o teatro de rua não precisa de muito, somente a rua e os espectadores; de forma impressionante, o público sempre se forma ao redor de um ponto de atenção. Então, julga-se que é uma coisa fácil de realizar, no entanto, isto é apenas uma parte da estória. Fazer acontecer o teatro de rua e obter a cumplicidade dos espectadores não é uma tarefa tão fácil; dentro do edifício teatral o publico é obrigado a comportar-se, mas na rua as coisas caminham de forma mais livre.

Um incidente antes do início do espetáculo por pouco não transformou-se em um evento mortal - um carro veio pela rua desobedecendo a sinalização da Prefeitura de que naquele lugar estava acontecendo um evento cultural. O carro avançou e parou rente ao limite do círculo cênico onde aconteceria o espetáculo. Por coincidência, falando-se da arrogância das elites opressoras, tínhamos um exemplo ao nosso lado. Os espectadores colocaram-se na frente do carro e tememos que o motorista no seu ódio a arte e a cultura, acelerasse e machucasse as pessoas. Os espectadores não se intimidaram e engrossaram a proteção ao espetáculo e o automóvel recuou. O espetáculo começou enfrentando a mesma natureza de problemas que enfrentou o líder indígena como também tantos outros mártires, que no decorrer da encenação foram sendo lembrados. O público espontaneamente explodiu em um grande grito: “Fora Temer”. Aquilo potencializou o acontecimento do espetáculo, sem contudo ter degringolado para o panfletário.

Tekoha, ritual de vida e morte do deus pequeno é um espetáculo sobre a liderança indígena Marçal de Souza. Eles começaram com um cortejo que iniciou um pouco distante do círculo de espectadores que os aguardavam na frente do Teatro Maria Bonita. De longe viu-se aquela trupe de artistas vir se aproximando dos espectadores com um estandarte; eles vieram lentos, acompanhados pela batida de um tambor que conferiu um tom fúnebre ao cortejo, aproximaram-se, tomaram o centro do círculo, e com muito cuidado foram construindo primeiramente o espaço da cena.

Eles trouxeram os espectadores para dentro daquele espaço resignificado e somente depois iniciaram a contar a luta de Marçal pelos direitos dos povos indígenas. Foram estabelecendo ligações com outras lideranças de outros setores da luta popular, usando recursos demasiadamente simples; foram construindo a saga da luta dos oprimidos no Brasil.

A direção fez uso de recursos bem simples: bastões de bambu, tecidos e alguns poucos objetos. Os atores e as atrizes, todos em igualdade de condições, formaram um único e coeso organismo cênico.

Ao final ficou a frase: “o que dói mais é a impunidade”. Um dos pontos impactantes do espetáculo foi quando os atuadores foram lendo notícias de jornal, de manchetes reais, apresentando os nomes de políticos e seus respectivos partidos e sua ação na perseguição aos trabalhadores. Houve também uma referência ao poder judiciário que está sempre a serviço dos ricos. O espetáculo narra o julgamento do assassinato de Marcel com cinco tiros na porta de casa, e reproduzem as falas do juiz que distorceu todo o processo para inocentar os réus fazendeiros mandantes do crime, até que o processo morreu por prescrição. A sensação da plateia foi de ter sido envolvida na corrente da história do Brasil, e de todos os povos oprimidos.

No grito de guerra dos atores a frase da arte contra a barbárie, e como disseram não se pode calar diante da injustiça. O Grupo de Teatro Imaginário Maracangalha estreou este espetáculo no ano de 2010 através do Prêmio FUNARTE Artes Cênicas nas Ruas 2010 e vem circulando desde então pelo Brasil. A dramaturgia é de Fernando Cruz e atuadores. No elenco: Moreno Mourão, Fran Lorena, Ariela Barreto, Renderson Valentin e Fernando Cruz, que também assina a direção, tendo inclusive recebido o prêmio de melhor direção na categoria teatro de rua do VI Festival Nacional de Teatro do Piauí.

Para o público presente ficou a sensação de que fazíamos um tempo que não víamos um espetáculo de rua, que sem ser panfletário. tem uma imensa força politica de intervenção social. Muitos dizem que a arte não pode fazer a revolução. É verdade, não pode, mas é uma grande ajuda na luta contra a opressão. Este espetáculo nos mostrou que podemos lutar e muito. Sabemos que estas coisas ruins que ocorrem no Brasil tem causas mais profundas. O que se pode fazer é plantar a semente da resistência, continuar dando voz a todos aqueles que tombaram dando a sua vida na luta por melhores condições de vida para o povo pobre.

Saturday, April 28, 2018

CLOWNSSICOS, UMA NOVA VELHA HISTÓRIA DE AMOR


O VI Festival Nacional de Teatro do Piauí, apresentou no dia 30 de novembro de 2017, no Teatro da Cidade Cenográfica, o espetáculo, Clownssicos, Uma nova velha história de amor para uma platéia lotada de crianças e artistas de outros grupos participantes do festival. A Companhia dos Clownssicos de João Pessoa, Paraíba, que é um coletivo de palhaços-pesquisadores resolveu se debruçar sobre a peça de Shakespeare. Eles deixaram que os ecos de todas as estórias de amor os atravessassem, coisas do cinema, do teatro, da literatura, do circo e da vida cotidiana. Todas as paixões foram trazidas para o caldeirão de suas pesquisas mediadas pela figura do clown nos corpos do palhaço-ator-pesquisador Suvelão (Daniel Nóbrega) e da palhaça-atriz-pesquisadora Cacatua (Irla Medeiros). A arte da palhaçaria foi a fundamentação teórico-prática de sua tese: amar vale a pena.
A direção do espetáculo está nas mãos do experiente Diocélio Barbosa, também um clown, homem de teatro e circo, um estudante disciplinado das artes da palhaçaria sempre em busca de algo sublime e transcendente nessa antiga arte.A direção soube dar aos palhaços a liberdade de irem buscar a sua própria lógica, dando ao espetáculo um tom de palhaçaria pura e, não algo com palhaços feito em um palco a guisa de ser um espetáculo infantil.
Os grandes temas do teatro sempre retornam aos palcos em muitas adaptações, das mais variadas formas, algumas seguindo a vertente original, outras propondo coisas completamente diferentes. Acontece que um texto teatral é como uma semente capaz de produzir inúmeros frutos, incontáveis porque não sabemos o tamanho da caminhada humana no universo. Um texto teatral continua o seu percurso, reatualizando a aventura da existência nos seus aspectos trágicos e cômicos. Entre estas grandes estórias está a a trágica estória de Romeu e Julieta de Shakespeare, dois personagens tão próximos da nossa condição humana que parecem ter vivido pertinho de nós, em um bairro vizinho.
Não é estranho que uma estória com este poder invada todos os lugares e até mesmo uma região oposta a sua natureza original, indo da tragédia à comédia. No brasil, por exemplo, o cinema colocou o destino daqueles dois jovens na pele de dois grandes atores da comédia brasileira: Oscarito e Grande Otelo, no filme Carnaval de Fogo, dirigido por Watson Macedo. Também temos a maravilhosa adaptação de Mauricio de Souza que trouxe para a cena Romeu Montéquio Cebolinha e Julieta Monicapuleto, que são dois personagens do mundo dos quadrinhos. A tragédia de amor também encontra ecos em fatos reais, como o que foi registrado pelo dramaturgo paraibano Elpídio Navarro no texto Sadi e Ágaba, dois jovens que pagaram com a vida pelo seu amor.
No espetáculo, uma escada dupla é usada como elemento cênico que serve de intermediário para todas as situações. Os números tradicionais da palhaçaria são redesenhados em situações que evocam da lembrança de Romeu e Julieta a de outros casais famosos, como a dama e o vagabundo do conhecido filme da Disney. Suvelão e Cacatua estabelecem um pacto de solidariedade com a platéia que os acompanha como cúmplices de seus encontros e desencontros amorosos. Os adereços são bonitos e funcionais criando um clima mutante na cena que combinando as várias configurações que são dadas a escada constroem os ambientes cênicos de cada momento. Os figurinos tem um charme a mais, pois foram cuidadosamente planejados para não serem apenas um traje de palhaço. A música é algo especial feita para o espetáculo como uma luva que se ajusta perfeitamente a uma mão. Também o desenho de luz merece destaque. É um espetáculo de uma coletivo de palhaços-atores amadurecidos e que respeitam muito o seu oficio. Eles não estão apenas procurando fazer mais um espetáculo para ocupar o espaço de produção e vender para o público escolar. Vão além e se credenciam como um dos mais respeitáveis grupos de palhaços do Brasil.
É sempre prazeroso estar na plateia de um espetáculo que respeita a inteligência dos espectadores oferecendo algo de qualidade, sem fazer concessões às banalidades da cultura globalizante da grande mídia. Vale a pena compartilhar com os Clownssicos os grandes momentos que somente o teatro e o circo, através da arte da palhaçaria podem oferecer.
Na ficha técnica. Encenação e dramaturgia: Diocélio Barbosa. No elenco: Daniel Nóbrega (Palhaço Suvelão) e Irla Medeiros (Palhaça Cacatua). Operador de som: Luís Eduardo. Trilha Sonora Original: Fabiano Diniz. Figurino: Maurício Germano. Execução de Figurino: Maria José. Adereços: Dadá Venceslau e Diocélio Barbosa. Execução dos Adereços: Dadá Venceslau . Maquiagem: Daniel Nóbrega e Irla Medeiros. Concepção do Cenário: Diocélio Barbosa. Iluminação: Eloy Pessoa. Fotografia: Bruno Vinelli. Programação Visual: Diocélio Barbosa. Produção: Clowssicos Produções Artísticas.


Saturday, March 31, 2018

ATRIZES EM DIÁLOGO

No ultimo dia 8 de março de 2018, Dia Internacional da Mulher, reuniram-se no palco do Teatro Lima Penante um grupo de atrizes para conversar sobre a condição e presença feminina no teatro. A ideia era de um chá da tarde com a subtítulo atrizes em diálogo.   Organizaram o evento: Mônica Macêdo; Sanzia Marcia;  Fabiola Ataíde e Leide Alcântara, todas funcionarias do Núcleo de Teatro Universitário da UFPB. Feitos os convites,  as atrizes foram chegando e se aconchegando sobre o palco.

Alguns atores apareceram, mas foi ficando claro que era uma conversa  muito especial; os homens poderiam ficar na platéia e escutar se assim quisessem; foi assim que pude testemunhar o encontro.

Estiveram presentes 23 atrizes, numa faixa etária de dez aos cinqüenta anos em média; novíssimas atrizes chegando agora aos palcos e atrizes veteranas continuando a sua trajetória artística.

Nisso começou a falação propriamente dita com a atriz Mônica Macêdo dando as boas vindas e refletindo sobre o ser mulher e atriz; ressaltou como era especial estarem todas sobre o palco ali comemorando uma data  dedicada às mulheres; lembrou que somente  no século XVII, no mundo ocidental, as mulheres tiveram a oportunidade de protagonizar um papel  no palco com a atriz francesa Therese du Parc, representando a personagem Fedra, de Racine. Ela lembrou que durante  milênios as mulheres estavam no palco através de homens que representavam os papéis femininos.

É certo que a história que nos foi contada é que as mulheres  estiveram numa posição subalterna na arte do teatro durante muitos séculos, mas esta é a história que foi contada por homens para legitimar a supremacia patriarcal. Hoje já existem estudos que levantam outras possibilidades. Sifakis (1) em um artigo para Revista Hespéria,  levanta a possibilidade de  uma atriz na comédia no século III e fala da presença feminina em outras formas dramáticas. No livro Teatro e Feminismo, a autora Sue-Ellen Case fala de uma desconstrução feminista dessa história do teatro que estudamos na sala de aula.(2)

No palco do Teatro Lima Penante cada atriz foi compartilhando a sua experiência com o teatro. Em  todos  os depoimentos foram aparecendo os desafios enfrentados, além da própria dificuldade  da disciplina teatral em si mesma. Havia além disso, a familia, os amigos com os seus preconceitos, faltava então ir explicitando a vida de cada  uma em uma corrente de emoção genuína, onde se colocou  a necessidade de  encontros como esse que valorizava e protegia a luta das artistas ali presentes.

Foi impressionante observar a atenção com que cada história era contada. Em um dos momentos, se pensou em limitar-se o tempo de falação, mas a cada fala, todas as atrizes voltavam a atenção para a falante da vez e lhe dedicavam um carinho atencioso, que dava a segurança para revelar na grande roda os seus segredos, as dores ocultas e vendo como tudo transcorreu, descobriu-se que, em verdade,  apesar de se conhecerem há muito tempo, quase todas desconheciam os detalhes da vida da  outra, e isto as tornou ainda mais fortes.

Foi um momento de intensa energia. Depois escutei de uma das participantes, que tinha abraçado uma outra de quem mantinha uma certa  distancia de “inimiga cordial”, mas que ali diante da  dor comum, esquecera-se disso e a abraçara com intensidade, somente se lembrando da antiga rixa depois que o evento já tinha se encerrado.

Entre atrizes experientes, a presença de atrizes que estavam começando  o teatro, e ainda mais jovem, a atriz Julia Gaião que deu o seu depoimento  de ter participado do espetáculo Labirinto Zumbi no ano passado.

O pano de fundo foi um chá da tarde que  serviu de mote para esta conversa de empoderamento feminino. Este acontecimento lembrou-me um artigo que havia lido  na internet sobre  o Laboratório Madalenas - Teatro das oprimidas(3). E também o primeiro Festival internacional de Mulheres no Teatro Experimental organizado no País de Gales em 1986(4), que reuniu atrizes e suas performances para trocas de experiências numa rede internacional de compartilhamento.

Naquele Chá da Tarde - Atrizes em Diálogo ocorreu algo de uma força excepcional, que deverá se repetir outras vezes, em eventos como o I Festival Mulheres de Maio, que se está organizando ainda  para maio do corrente ano. O diálogo  das atrizes também terminou por desnudar a face cruel da atividade artística com relação às mulheres. Algumas conseguem sobreviver ao ataque e assédio moral  indo em frente e dedicando-se às artes cênicas enfrentando o sofrimento e a dor com uma dose altíssima de  resiliência.

Não ouvi em nenhum momento nos depoimentos alguma das atrizes dizerem que estavam fazendo teatro como um trampolim para uma outra coisa, como a televisão, por exemplo.  Todas se  orgulhavam de sua luta e dedicação a arte do teatro, um intenso amor, uma paixão avassaladora.

É no teatro que as grandes atrizes amadurecem e constroem verdadeiramente o seu ninho, vivem ali  mil vidas, tornam a existência muito mais intensa. Sabemos que muitos homens também enfrentaram as dificuldades  que são  normalmente associados a este tipo de opção profissional , mas não há comparação, temos uma sociedade machista, misógina que não consegue ter  a clareza do que significa ser mulher. Tornar-se mulher é algo que vai além da opção de gênero, é uma luta. Tornar-se uma atriz é uma guerra.

Estiveram presentes ao encontro: Mônica Macêdo; Leide Alcântara; Itamira Barbosa; Maria Betânia; Celly de Freitas; Adriana Fernandes; Katheryne Menezes; Margarida Santos; Dyan Urshita; Dudha Moreira; Valeska Picado; Sheila Martins; Eulina Barbosa; Larissa Lima; Fabíola Ataíde; Sanzia Márcia; Kassandra Brandão; Ingrid Castro; Mayara Santos; Shirley Jackline; Bárbara Gomes; Adyelle Santos e Júlia Gaião.

REFERÊNCIAS

(1) SIFAKIS, G. M. Comedia: An Actress of Comedy. Hesperia: The Journal of the American School of Classical Studies at Athens.  Hesperia: The Journal of the American School of Classical Studies at Athens. [S.l.]: The American School of Classical Studies  at Athens, 1966. v. 35. p. 268–273. Disponível em: .

(2) CASE, Sue-Ellen. Feminism and theatre. [S.l.]: Routledge, 2014.

(3) SANTOS, Bárbara; VANNUCCI, Alessandra. Laboratório Madalena - Teatro das Oprimidas. kuringa-barbarasantos.blogspot.com.br.  kuringa-barbarasantos.blogspot.com.br. [S.l: s.n.], 2010. .
 Disponível em: .

(4) BASSNETT, Susan. The Magdalena Experiment. New Directions in Womenś Theatre. The Drama Review: TDR. The Drama Review: TDR.  [S.l.]: The MIT Press, 1987. v. 31. p. 10–17.
Disponível em: .

Tuesday, March 27, 2018

O CRISTO LAMPIÃO


Esperamos de uma Paixão de Cristo as cenas piedosas já massificadas pela tradição religiosa e sempre se dando dentro da cronologia comumente aceita.
É interessante como às vezes somos colocados diante de algo completamente diferente e puxado por uma lógica não-linear  como camadas de multi-universos que se cruzam. É o caso da encenação do Cristo Lampião produzido pelo Coletivo Porta Cênica,  na Praça da Paz no Bairro dos Bancários em João Pessoa, no dia 24 de março de 2018, às 21 horas.
Roberto Cartaxo como narrador

  Começamos  pelo narrador interpretado pelo ator Roberto Cartaxo; um antigo habitante de  uma cidade do interior da Paraíba  narra de forma fragmentada a visita de Lampião no dia em que se fazia uma representação da Paixão de  Cristo, mas ao mesmo tempo, este narrador, mistura fatos do presente, passado e futuro de forma fragmentária.  Isto lembra a definição do teatro pós-dramático do crítico Hans-Thies Lehmann, que fala sobre a perda da sacralidade do texto dramático dando lugar a um roteiro fragmentado e atravessado por elementos de  outras linguagens artísticas. Este modo fragmentado alude à nossa civilização que vive de  pequenos pedaços de informação e mistura completamente  todas as coisas.

Encenação na Praça da Paz
A paixão de Cristo-Lampião  vai transformar o cristo histórico em um sertanejo sofrido e explorado pelos latifundiários, e na combinação das cenas, Lampião também fruto daquele regime de opressão dos pobres é mesclado à paixão de Jesus.

Se olharmos para esta obra com estes olhar da fragmentação da alma das pessoas nestes anos que agora vivemos, percebemos que se trata de algo revelador; somos uma sociedade de cacos de coisas, de pós-verdades, de mentiras que se aceitam para fazer a perseguição de pessoas com finalidades políticas, como é o caso da perseguição judicial-midiática ao ex-presidente Lula. Estamos numa sociedade do espetáculo onde o que importa é o efeito espetacular e não a verdade  dos fatos. O Cristo-Lampião, termina em sua visão pós- dramática por costurar todas estas realidades e sua crueldade.

Jô Costa, Gisele Suminski,
 Edilza Detmering, Nyldete Xavier 

O interessante é que no espetáculo Lampião e Jesus,  foram pessoas  completamente fora da lei, cada qual em sua época. Jesus foi ressuscitado dos mortos para reinar ao lado de Deus. Lampião foi endeusado e trazido pela cultura do povo pobre do nordeste como um herói, que desceu ao  inferno e foi retirado de lá  pela dor comum de todos os que foram vitimas da justiça  falível dos donos do poder. Essa elite de poderosos continuará habitando a lama, enquanto os heróis ascenderam ao céu, Jesus indo para o seu trono e Lampião indo para a memória popular.

Os grandes temas da exploração do povo brasileiro e nordestino estão presentes e personificados numa simbiose de personagens históricos do estado da Paraíba, dos evangelhos e do Brasil.  A encenação valoriza este aspecto da luta de classes dentro de uma sociedade dominada por meios de comunicação comprometidos com a escravização do povo para a manutenção dos privilégios de  uma elite, que tal como os nobres da  época colonial, moram no brasil com o coração na metrópole. Antes era portugal. Agora é os Estados Unidos da América do Norte. É a mesma elite de  nobres cujos títulos nobiliárquicos foram construídos em cima da miséria do povo.
Nathanael Alves, Julia Oliveira,
Kaline Brito

O Cristo-Lampião foi para a praça em um dia muito movimentado, mas apesar das dificuldades técnicas e climáticas, pois faltou som, a iluminação não funcionou,  choveu forte por duas vezes. Mesmo assim o publico permaneceu junto aos atores e atrizes durante quase duas horas de encenação, se emocionando e curtindo aquele ato de resistência cultural.

Não houve no espetáculo nenhuma referencia direta à política dos dias de hoje. A grande metáfora, no entanto, foi completamente assimilada.  A transposição do rio São Francisco, foi lembrada  como algo  ligado a ressurreição de  Jesus, pois para o povo nordestino esta chegada das águas  tem o valor de  uma nova vida.

O espetáculo lembra que aqueles que lutam pelo povo se mantém vivos e são fortes a cada dia que passa. A encenação teve o mérito de usar um elenco competente e  enxuto que demonstrou muita garra para enfrentar as adversidades.  O Cristo-Lampião demonstrou também como no imaginário popular é feita a ressurreição dos heróis. Apesar dos paralelos a Cristo, o mesmo não é substituído por lampião, cada qual continua com o seu lugar na mente  do sertanejo explorado pela sanha destruidora dos coronéis ricos e egoístas.
 Denis Almeida, Maria Betânia

Nem lampião nem cristo, contaram com a justiça dos homens, apenas com o ódio.  Vemos que o ódio é a característica  fundamental daqueles que exploram o povo pobre. Estes mesmo que fazem do ódio a sua profissão de fé, por outro lado, são os que vivem a promover a própria  santidade, de um lado são ratos de igreja, do outro demônios devoradores de direitos dos mais pobres e oprimidos.

Este espetáculo aconteceu num momento delicado da nação brasileira, que está completamente aviltada em suas dignidade.  Vimos na praça os figurinos todos muito coloridos aludindo-se ao sonho,  uma trilha sonora rica em descrição das emoções associadas a luta do povo.

O texto é de Marcelo Félix. A direção de Kaline Brito. No elenco: Roberto Cartaxo; Denis Almeida; Maria Betânia; Nyldete Xavier; Bruno Fonseca; Jô Costa; Edilza Detmering; Julia Oliveira; Michele Souza; Gisele Suminski; Nathanael Alves Filho; Fernando Cabrera; Erik Albuquerque; Willian Santos. Cenografia de Roberto Cartaxo; Cenotécnica de  Francisco Régis; Músicas de Mestre Fuba e Nyldete Xavier.

Sunday, January 21, 2018

MASTER CLASS

A condição humana é bem representada pelas duas máscaras que simbolizam o teatro: a tragédia e a comédia. A vida das pessoas está contaminada por estes dois vieses, visto que vivemos o trágico e somos alvo da comédia.  Ontem, no Teatro Paulo Pontes, em João Pessoa, fomos colocados diante da crueldade dessa humanidade no espetáculo Master Class. O autor Terrence McNally capturou em uma singular faceta a estória de uma pessoa e toda a sua condição trágica, demasiadamente humana, não só pela apresentação do drama pessoal, mas pela exposição cirúrgica, daquilo que nos torna objetos da tragédia, a presunção de que temos o controle total de nossas vidas. O trágico é testemunhado pela visão do espectador que assiste ao sofrimento alheio e tenta negar a si o mesmo destino. A personagem Maria Callas no palco tenta encontrar os meios de se superar sem entregar-se a comiseração alheia, procura vencer a autoflagelaçao e rompe com as próprias limitações. Vimos como a vida humana é um holograma, como tão bem expressou o autor através de uma Master Class, revelando a luta de um indivíduo em busca de sentido.

Master class nos leva para os bastidores de uma mulher chamada Maria Callas, um monstro sagrado da arte construído pela imaginação alheia, La Divina, vemos a condição daquela que tendo a aparência de algo deifico, como no titulo que lhe deram, tem por outro lado, invisível à maioria, a sua dor secreta, que não interessa ao publico a não ser como parte do espetáculo. Somos levados a esta personagem pelas mãos do diretor José Possi Neto, que opta por uma construção visual que nos remete aos meneandros da angustia. A palavra meneandro é a fusão da palavra “meandro” com o nome do comediógrafo grego Menandro para expressar como os recursos da comedia de situação são utilizados para expressar uma condição trágica. A cenografia de Renato Theobaldo constituída de cubos de malha lembra o interior de um celebro humano, tendo ao fundo uma tela que faz referência ao lugar da memória, ou para revelar a guerra interna da personagem. A direção usa muito bem esta ambientação construindo a movimentação no palco como os caminhos de uma rede de neurônios em sua dança consciencial. O espetáculo é de fato uma coreografia que revela a música secreta da vida de um ser humano, como dizem alguns que semelhante a música das esferas que regem o universo, cada indivíduo vive pelo principio hermético da correspondência  a sua musica das esferas, e é isto que a direção revela. Lembrando um teórico do teatro contemporâneo, o diretor construiu um espetáculo que dança. Não a dança no sentido comum, mas a dança das esferas.

Maria Callas é fisicalizada em cena pela atriz e dançarina Christiane Torlone que através de ações físicas desenhadas com precisão colocam a platéia diante da personagem, e acontece então algo muito difícil de ser realizada no teatro, que é a condição trágica provocando a comedia, não porque foram utilizados os recursos histriônicos da atriz, mas porque o extremo da dor, da arrogância e das vicissitudes humanas provocam no observador o riso, não pelo ridículo e grotesco, mas pela necessidade de defender-se daquilo que é terrível e doloroso. O riso é uma defesa do publico. Através de sua partitura física e vocal a atriz coloca os espectadores diante do momento de queda de uma criatura divina, no momento em que ela é despida de sua condição sobrehumana e devolvida a humanidade sofrida de onde saíra, aquela que chegou a se considerar o centro do universo, que vendeu a sua alma a este propósito, que traiu o amor, encontra ao final a sua solidão. A atriz expõe a fragilidade daquela alma encarando a sua queda com uma fala: finito, acabou.

O espetáculo que tem a disciplina própria do teatro musical com o seu desenho preciso trouxe um elenco de atores-cantores que também “dançam” junto com a Cristiane Torloni este espetáculo idealizado por José Possi Neto: Julianne Daud, Paula Capovilla, Fred Silveira, Thiago Rodrigues, Jessé Scarpellini e Raquel Paulin  A direção musical do Maestro Fabio G. de Oliveira  também muito bem realizada possibilitou ao público um mergulho pequeno, mas instrutivo no mundo da ópera.

O público foi feito aluno daquela mulher magnífica que encantou o mundo do espetáculo  e também testemunhou o momento de seu ocaso, quando a sua condição física como cantora já havia deixado de existir e sobrava-lhe somente a sombra da deusa que tinha sido. A cidade de João pessoa pode ver este espetáculo e aproximar-se de Maria Callas graças a MaLu produções que teve a iniciativa de trazer-lo para cá.

Sunday, December 31, 2017

ROBERTO CARTAXO, O MESTRE-ESCOLA DO TEATRO

O diretor Roberto Cartaxo é um ativista do teatro sempre disposto a educar novas gerações de artistas. Se fizermos uma pesquisa acerca das pessoas que estão de alguma forma hoje ligadas a atividade teatral em João Pessoa, poderemos constatar que mais da metade passaram pelas suas oficinas e cursos de formação de atores promovidos no Teatro Santa Roza e na Fundação Espaço Cultural.
É um formador de atores. Este é um fruto do seu trabalho de direção teatral. Através de seu trabalho de pedagogia cênica, que sempre foram concluídos com a montagem de algum clássico do teatro universal, brasileiro ou paraibano, sempre encontrava um meio de encaixar cada ator e atriz no papel que lhes dava as melhores condições de brilhar.
É um diretor silencioso que vai permitindo o jogo teatral e direcionando de forma inteligente as cenas. Ele raramente sobe ao palco para dizer a um ator como realizar uma ação. Roberto é paciente, apesar de que é conhecido pelos alunos e colegas pelas explosões quando a atividade teatral é desrespeitada. Para Roberto, o palco é uma região sagrada que ele venera com extremo rigor. É um diretor que se vale de sua grande capacidade de pensamento visual, é um artesão da interpretação dramática, ele compõe os espaços com os atores, é um arquiteto do espaço teatral vivo valorizando-o em seu conjunto, atores e espaço com o uso muito cuidadoso da iluminação e sonoplastia.
Na sua abordagem da dramaturgia é interessante como é capaz de adaptar qualquer texto dramático para o seu grupo de trabalho, ele consegue algo fantástico que é a cumplicidade de todo o elenco, formando um único amalgama, tornando possível fazer tudo o que se possa imaginar.
Tive o privilégio de estar junto de Roberto, ora como ator, ora dividindo tarefas de direção, algumas vezes como oficineiro de seus cursos de teatro, e pude observar o seu modo de trabalhar: uma habilidade de encantamento coletivo da equipe sob sua liderança que ultrapassa os limites da compreensão. Ele consegue que atores iniciantes, em condições precárias de trabalho, com pouco tempo de ensaio se dediquem à aventura do teatro de modo total fazendo isso com extrema disciplina e confiança.
No seu método de criação, o texto dramático é lido para que se compreenda o sentido da história e logo em seguida ele vai estudando este texto de forma ativa, montando as cenas, e dando enfrentamento aos problemas específicos de formação, como preparação corporal e vocal, tudo isto simultaneamente. O resultado final são atores motivados e toda uma geração que decidiu que continuaria a fazer teatro em virtude do ensinamento de "Tio, Bob", como é carinhosamente chamado por seus alunos.
Os seus atores têm um comportamento de reverência, como se tratassem com um sacerdote de Dionísio, o deus grego do teatro. Isto se deve ao fato de que Roberto cativa os seus atores. Dá a eles a experiência da criação teatral, conduz-lhes aos climas emocionais proporcionando-lhes a verdade da cena.
Do ponto de vista visual os seus espetáculos são um milagre de aproveitamento dos recursos disponíveis. Roberto acredita na beleza e não aceita nenhuma solução que não possa oferecer ao público a experiência do belo. Não se filia a qualquer corrente teatral da moda, nem se preocupa muito com a falação dos críticos. Segue criando uma obra cênica que mereceu de dramaturgos do quilate de Altimar Pimentel, autor do texto Alamoa, quando da montagem do mesmo com os alunos de uma oficina, o apelido de Spielberg do teatro paraibano. Altimar ficou pasmo quando viu a visualidade da cena, grandiosa e cheia de efeitos, realizada por alguém que tem o domínio preciso dos meios do palco à italiana. Poderíamos dizer que Roberto Cartaxo é um de nossos mestres do teatro.
Nesta composição de cena Roberto trabalha com o seu senso de espaço, coisa que todo diretor deve atinar, o senso de profundidade e das alturas de cena, o senso de profundidade de visão dos espectadores. Roberto trabalha para a visão e audição dos espectadores, vai moldando a sua cena e conferindo os resultados desta visão.
Podemos ter de roberto este ensinamento, não ter medo de oferecer oficinas de teatro a iniciantes e cuidar deles com tando amor e zelo que eles queiram fazer teatro para o resto de suas vidas. Por isso, coloquei como título, o mestre-escola do teatro, porque antes mesmo de existir um curso de teatro Roberto Cartaxo foi e ainda é um dos grandes formadores de atores da Paraíba. Este é o seu trabalho.
É uma das referências do teatro paraibano. Hoje muitos atores profissionais e amadores, professores e pesquisadores de teatro, foram alunos de Roberto e se dedicaram às artes cênicas em virtude dele ter despertado neles o amor ao teatro.
Roberto cartaxo é um diretor que prima pelo bom acontecimento do fenômeno teatral: a cumplicidade entre os atores e o publico.

ROBERTO CARTAXO, FELIZ 2018, QUE VENHAM NOVOS ESPETÁCULOS.