Thursday, December 08, 2016

AXÉ: CANTO DE UM POVO DE UM LUGAR


Hoje, 8 de dezembro de 2016, vimos na abertura do 11º Fest Aruanda, festival de cinema que ocorre em João Pessoa, Paraíba, o filme: Axé, canto de um povo de um lugar, do diretor Chico Kertesz. A princípio pensávamos que seria só mais um filme sobre aspectos da música brasileira. Esta era a nossa expectativa diante de um material desconhecido.

O fato é que assistimos a a uma epifania de energia de uma brasilidade tão rica e tão diversa que nos autoriza a pensar que de fato Oswald de Andrade tinha razão quando falava da antropofagia como característica cultural do Brasil. Penso que o filme que assistimos é como um retrato de todo o Brasil, e não somente da música, mas da complexa sociedade brasileira divida em um apartheid cultural e econômico.

O filme ao traçar o caminho do axé desde os seus primórdios até os dias recentes, esquarteja os mecanismos da cultura e da indústria cultural, revelando como um povo em seu conjunto é fonte tanto de sua riqueza como de suas misérias, e como o poder da grana tanto constrói como destrói tudo que toca.

Vemos a grande capacidade de recuperação do povo brasileiro que não se entregará, que encontrará os meios alternativos de sobreviver, mesmo estando em um momento de fogo baixo de sua vitalidade criadora, talvez entorpecidos pelo poder da grana que retirou as bases daquilo que originalmente tinha um sentido comunitário.

Faz-se uma pergunta, que retorno tiveram as comunidades e a cultura negra? Apenas a sanha de lucro foi impulsionando a criatividade? Vê-se um momento emblemático quando o axé cria os seus cordões e os seus foliões das classes médias ricas empurrando o povo originário para as pipocas da margem.

Um documentário com uma linha narrativa muito bem construída, num jogo de vai e vem, uma costura que apresenta ao mesmo tempo uma história cultural e também uma discussão sobre as implicações da indústria cultural. O filme mostra que não é possível compreender o axé como um movimento organizado e planejado, mas que uma vez começado a mover-se era necessário ter-se percebido que havia um valor maior a defender que era a própria essência; vemos com muita clareza como foi fácil vender a alma ao diabo. E percebemos claramente o funcionamento da mão perversa do capitalismo a tudo deformando para obter o lucro imediatado, vemos e aprendemos como funciona a cadeia de produção da indústria cultural e também de lambuja, a onipotente presença do grande irmão, na figura da rede globo, controlando a cultura brasileira que pode ser colocada nos altares da fama.

O filme demonstra com acuidade como os músicos, cantores, compositores e produtores locais estão presos numa cadeia de produção que vai desde o estúdio de gravação, das rádios à televisão;
a presença da mídia conservadora das grandes famílias, que dão espaço à manifestação artística do axé depois dela ter-se tornado um bom negócio para os empresários.

O filme é um sinal de esperança, neste tempo tenebroso de golpe contra a democracia e de instituições falidas dos podres poderes da justiça, do executivo e do legislativo.

O filme mostra-nos algo que é o antídoto para toda esta perversidade das classes ricas que hoje destroem a democracia brasileira: “forte é o povo”, como já disse um político paraibano. O filme nos diz isso, ao mostrar a fonte de onde surgiu o axé e de seu desenvolvimento, forte é o povo brasileiro, por isso vejo este documentário como um holograma do Brasil, um pequeno pedaço da cultura brasileira através do qual é possível ver o todo. As falas de alguns dos personagens são falas que gostaríamos de dizer a plena voz, como o momento em que os aplausos irrompem no meio da projeção para concordar com o fato de que, apesar de qualquer força de manipulação, o povo tem a força para resistir e vencer, mesmo que na sua comunidade, e então, acho que o filme mostra a fonte da resistência contra os perversos fascistas que tentam destruir a democracia brasileira: a alegria é a nossa prova dos nove, iremos vencê-los porque temos a energia criativa para isso.

Outra coisa muito importante, o axé não é um estilo, um tipo, mas um modo de pensar e de encarar a vida, quase uma filosofia, um assumir-se em sua herança negra e construir-se como pessoa.


Serve também a lição de que quem negocia com os donos da maldade termina se contaminando com ela. Fica a esperança, é um filme necessário a este momento de luta pela brasilidade quando tantos desejam serem estrangeiros em sua própria terra. O filme é uma chamada para o chão do Brasil. E viva a Bahia de todos os santos.

Friday, November 25, 2016

O SONHO DE MANFREDO

Um dia desses o amigo Manfredo Caldas me ligou, me confessou que havia lutado para conseguir o meu telefone, pois precisava me contar um sonho que havia tido, um sonho tão nítido que o impressionara profundamente. Ele não estava conseguindo guardá-lo consigo mesmo; precisava com urgência falar comigo.

O cenário, ou melhor, a locação era a casa da mãe de Manfredo no bairro do Miramar, estávamos na sala eu defronte a janela voltado para dentro da casa e Manfredo estava diante de mim vendo toda a paisagem por trás, no caso o jardim de sua mãe com os ipês floridos. E eu dizia para Manfredo que estava muito preocupado, pois Jurandir Moura não estava deixando-me rodar o meu filme, e Manfredo contemporizava dizendo-me que não, que Jurandir não faria isso. Então Manfredo vê que Jurandir Moura estava vindo em direção à casa e me diz, não se preocupe Everaldo pois Jurandir está vindo para cá. O sonho era intenso e Manfredo sentia os aromas agradáveis da casa de sua mãe. Ele me diz que ficou agoniado para me relatar este sonho.

Eu contei para Manfredo que Jurandir Moura foi quem publicou os meus primeiros poemas no correio das artes da qual era o editor. Lembro-me que o conheci e naquela conversa falamos que tinha escrito alguns poemas,ele me disse: “mande-me eles, se forem bons eu publico”. Depois de alguns meses vi que o Correio das Artes tinha trazido os meus poemas publicados. Convivi pouco com Jurandir Moura. Ele era uma referência cultural para a minha geração naqueles idos, mas o que me marcou foi a sua personalidade inquieta pelo pouco que pudemos conversar. Depois soube de sua trágica morte e foi como se algo tivesse acontecido comigo.

Quando Manfredo me contou de seu sonho e de minha preocupação com o fato de Jurandir não estar deixando-me rodar o meu filme, lembrei-me da grande personagem que morava a poucos metros de minha casa no Bairro dos Expedicionários em João Pessoa. Jurandir estava na minha memória, pelo editor do correio das artes e como o realizador do documentário a Festa do Rosário de pombal.

Os sonhos têm este poder de nos reconectar com as pessoas e suas forças criativas, e Manfredo que é um dos meus mestres, que reverencio sempre que posso e tenho a oportunidade de falar de minha formação cinematográfica. O sonho de Manfredo fala de minha inquietação pelo cinema, pela poesia, e é lindo que neste cenário amoroso da casa de sua mãe venha o próprio Jurandir para me dizer que o caminho está livre, que eu posso fazer os filmes. Também fiquei encantado com a agonia de Manfredo para me contar de seu sonho. Ao telefone, ele me fazia pleno de emoções, enfatizando os detalhes da casa de sua mãe, tão vívida narração que também senti-me abalado e acarinhado por ela. Manfredo enfatizava: “Jurandir mandou te dizer que você deve fazer os seus filmes”.

Manfredo transportou-me de forma tão detalhada para dentro de seu sonho que tive a sensação de também tê-lo sonhado. Grande amigo e referência de quem ganhei de presente este sonho. E faço também em mim a recuperação de meus sonhos que já estavam sendo tragados por esta burocracia que metemos por vezes na vida.


É necessário voltar-se para a janela e ver o jardim da mãe de Manfredo e como ele enxergar a alegria e as possibilidades que sempre se descortinam diante de nós. Não dá para ficar sempre com o olhar voltado para a parede da sala. É preciso voltar o olhar para o jardim, tão florido, tão cheiroso, e ver que Jurandir está vindo com a sua inquietude para dizer que podemos rodar o filme, gozar a vida. Este sonho de Manfredo fez-me acordar. E agora entendo a sua angustia em obter o meu telefone para me comunicar a sua visão. mas gostaria também de compartilhar com todos este poderoso sonho e dizer que quando estiverem se sentindo bloqueados, ou qualquer coisa assim, lembre-se de que estamos de costas para a janela e que Manfredo vai te lembrar que você deve se voltar e contemplar o jardim, e ver que a permissão para você ser feliz depende de voltar-se e ver o que ha de bom e belo no mundo, que as pessoas que você admira estarão contigo te apoiando no teu coração. Jurandir foi a primeira pessoa que acreditou em mim, e voltou para dizer que continua acreditando, que devo continuar a fazer filmes e arte.

Tuesday, June 28, 2016

ENTREVISTA

Concedi esta entrevista em um momento relaxado, sem qualquer preocupação com qualquer formalidade. Depois os dois repórteres,Arthur Morais e Jessica Sales, me mandaram o texto transcrito e tomei um susto com a informalidade na qual tinha deixado fluir as minhas confidências. Geralmente se faz uma "auto encenação", termo usado pelo Prof. Bertrand Lira para se referir como os entrevistados representam para a imprensa um papel dando certa impostação às suas declarações. Na minha entrevista  me esqueci completamente da  formalidade; falei solto enquanto tomava café. 

A entrevista  foi publicada na excelente Revista Digital Bitola-8 , que foi um Trabalho de Conclusão de Curso de Comunicação Social da Universidade Federal da Paraíba sob a orientação do Professor Pedro Nunes.

Resolvi compartilhar a entrevista como estava, crua e verdadeira, revelando aspectos de mim que ainda não havia me dado conta e também para desnudar-me completamente de qualquer pretensão de importância. Segue abaixo a transcrição completa:

ENTREVISTA com Everaldo Vasconcelos
 realizada por Arthur Morais e Jéssica Sales
  1. Com a criação do NUDOC o que mudou no cenário cinematográfico na Paraíba?
É interessante conhecer a obra do Wills Leal, Cinema na Paraíba, que conta a história do cinema paraibano em dois volumes. Nessa obra, Wills contextualiza como foi o surgimento do Núcleo de Documentação Cinematográfica da UFPB naquele momento político cultural. Também tem o trabalho muito interessante de Pedro Nunes e de João de Lima, que aprofundam a pesquisa acerca deste tema.
A minha geração começou a fazer cinema praticamente com o NUDOC e através dele tomou conhecimento do cinema paraibano que existia, tanto que alguns de nossos professores foram cineastas que participaram daquele ciclo de cinema iniciado na década de 1960: Manfredo Caldas, Manoel Clemente, Pedro Santos. Teve também Linduarte Noronha, só que Linduarte não estava propriamente no NUDOC, mas era professor no curso de comunicação e nós assistíamos às suas aulas.
O NUDOC, de fato, foi como uma espécie de rito de passagem do bastão, ele serviu muito para que pudéssemos ver todos os filmes do ciclo de cinema iniciado na Paraíba. Nós vimos todos os filmes de Vladimir Carvalho disponíveis na época, filmes de Jurandir Moura, filmes do Linduarte Noronha, Ipojuca Pontes, filmes de outros ciclos. Lembro também de um filme Alex Santos, O Coqueiro. Machado Bittencourt, que tem uma filmografia importante. Ele fundou em Campina Grande a Cinética Filmes, um estúdio e um laboratório, e inventou equipamentos para revelar e copiar filmes. Um pioneiro que criou, um laboratório independente, que não precisava mandar revelar os filmes no Rio de Janeiro, fazia todo processo aqui.
Foi através do NUDOC que nós entramos em contato com toda essa geração que fez o cinema paraibano aparecer, o NUDOC não teria sido possível se não tivesse havido essa geração anterior. Às vezes, as pessoas colocam o NUDOC como algo separado da história do cinema na Paraíba, como se fosse uma coisa que surgiu em um instante mágico, e ao contrário, o NUDOC, somente foi possível por causa dessa geração de cinema que, se aproveitando de uma ocasião histórica aqui, que foi a realização de uma jornada de cinema, no qual o reitor Linaldo Cavalcanti tornou possível um convênio com a França, através de Jean Rouch, para que fosse realizado um curso com o ateliê de cinema direto Varan de Paris.
Toda a minha geração que circulou pelo NUDOC, fez os cursos, na verdade receberam esse bastão porque nossos professores, de fato, lutaram pela implantação do NUDOC. Pedro Santos, músico, compositor, um dos grandes educadores de cinema, vindo do movimento cineclubistas, foi uma das grandes figuras articuladoras do Núcleo.
O NUDOC foi então essa passagem de bastão. Daí, que essa geração que gravitou em torno do Núcleo, direta ou indiretamente, é aquela que levou adiante o sonho de fazer cinema. Eles não foram apenas fruto de uma oficina da Varan no cinema direto, eles, de fato, foram pessoas que viram todo o cinema paraibano que tinha sido produzido e tiveram como professores aqueles cineastas. Daí você, tem Marcus Vilar, Torquato Joel, Bertrand Lira, que surgiram disso. Houve, paralelo ao NUDOC, outros movimentos de cinema, mas ainda bebendo dessa força, dessa pujança das coisas que ocorriam, é tanto que se faziam muito brinquedo entre o cinema direto e o cinema indireto, e não deixava de ter uma referência do que estava acontecendo no NUDOC.
  1. Você participou no Curso de Cinema Direto na Paraíba?
Participei de todos eles.
  1. Havia divergência em relação ao Cinema Direto?
Havia algumas coisas que já foram bastante discutidas em trabalhos acadêmicos e filmes documentários sobre este tema. A formação cinematográfica no NUDOC era muito rígida através dos ateliês de formação; tinha um modo de ensinar cinema muito apegado à questão técnica, à questão histórica e ao compromisso social do cinema. Então, isso fazia com que houvesse determinadas divergências. Algumas pessoas achavam que o cinema poderia ser alguma coisa mais experimental, que pudesse se experimentar uma série de outras coisas e os nossos professores eram bastante rígidos.
Lembro-me demais de Pedro Santos nos dando altas reprimendas porque a gente ficava, às vezes, voando com a teoria e ele dizia: “não, não pode ir por aí, porque a semiótica do cinema vem por aqui, a teoria é essa, as coisas são essas, a crítica é essa, a teoria da montagem é essa, as teorias da montagem ideológicas são essas, é assim, isso, isso, e tal...”. A gente viu todos os principais filmes da história do cinema em 16mm, em uma sala de cinema. Isso dá para ter uma idéia do que é ter uma formação dessas.
Havia alguns grupos que se contrapunham a esse processo tão rígido de formação cinematográfica, mas pelos frutos que essa formação deu, eu acredito que foi muito correto.




  1. O Curso de Cinema Direto limitava a escolha dos temas?
Não. Nunca houve nenhuma censura a qualquer tema. Há filmes de todos os lados, de todas as cores, de todos os temas possíveis e imagináveis. Filmes que abordavam desde situações familiares, como meu próprio filme “A Sagrada família”, que tinha uma abordagem muito pessoal e muito familiar. Eu apliquei no cinema o processo de lavagem de roupa suja de minha própria casa, um processo de auto-analise psicanalíticas.
Há filmes que abordavam a questão da terra, há filmes que abordavam a questão das artes, filmes que abordavam as questões da homossexualidade, filmes que abordavam questões religiosas ou dos menores abandonados, questões do sertão, da seca. Não havia uma limitação de temática para nenhuma direção, o que havia era uma questão de proposta antropológica.
Um modo de abordagem que o cinema direto propunha era você ter uma personagem e dar voz a ela, porque um dos princípios do filme etnográfico é que você dá voz a quem não tem essa voz, então o filme torna protagonista aquele que é dono de sua história. Não sou eu que chego com minha câmera e meu filme e faço um documentário sobre o que eu penso que deve ser aquela pessoa – o documentário tradicional faz muito isso, é uma leitura que o cineasta faz do outro – e o filme etnográfico é o contrário, nós damos voz ao outro, o filme é ele.
  1. Havia preconceito com o super-8?
Com relação a geração anterior tinha, muito, porque, na verdade, a bitola de cinema mesmo era a de 35mm, a bitola profissional de cinema. Então, quando você fazia um projeto para 16mm, já era um projeto considerado pela metade do caminho, porque você estava trabalhando com a metade da bitola do cinema profissional e trabalhar com o super-8 era trabalhar com um quarto da bitola de 35mm, era algo menor ainda, quase como um brinquedo. Na verdade, a câmera de supér-8 era um brinquedo que os pais compravam para gravar as férias, os almoços de família, coisas desse tipo, como hoje as câmeras de celular que fazem isso.
Quem vai conferir esse status à câmera de super-8 é principalmente o Jean Rouch através de cinema etnográfico. É o cinema antropológico quem vai transformar uma câmera de super-8 numa arma poderosíssima, porque ela continha no seu próprio equipamento o som e a imagem. Você não imagina o que significa isso hoje, porque existem celulares como esse aqui que grava em 4k.
Na época você tinha um equipamento que não precisava de um gravador atrelado de lado para poder gravar as coisas. Num filme em 16mm que eu fiz era um carnaval, porque eu tinha uma câmera, um gravador que tinha que ficar pregado de lado, a equipe era uma maravilha, ficava correndo atrás das coisas e ainda ligado para bater o ‘sincro’ com a câmera, imagina o rolo?!
E ainda eram equipamentos legais, porque às vezes, em determinados equipamentos, por exemplo, quando começou a existir o VHS, a câmera era uma e o gravador da imagem era outro. A câmera super-8 era um verdadeiro milagre tecnológico, oferecia liberdade e uma qualidade muito boa, porque se eu filmasse em kodachrome, uma película muito boa, com a luz do dia e com o filtro adequado, obteria um tipo de definição de imagem, com um tipo de granulação que me garantia uma coisa muito boa quando projetava em telas maiores. Mas já existia, por exemplo, o ektachrome, um outro tipo de película, se eu filmasse com o ektachrome, ele dava para gente um tipo de granulação que era bacana para fazer efeito, mas às vezes, possuía um grão muito grosso do filme, as películas antigas possuíam diferenças de uma para outra. Variavam não só em relação a questão do modo de obter a cor, mas também na quantidade de grãos, no modo como ela se dividia quimicamente para produzir as diferenças, as singularidades.
É claro que não tínhamos essa qualidade toda em relação a gravar em 35mm, mas, às vezes, você obtinha coisas muito boas em super-8, uma boa câmera filmando em kodachrome com luz do dia era uma imagem perfeita. Agora, filmes em kodachrome com luz artificial, a gente já ficava por ali. O ektachrome era um tipo de película ruim. Aí tinham as películas da Fuji, a películas agfa color...
A vantagem de a minha geração trabalhar com o super-8 foi nós aprendemos coisas que, talvez, a geração que trabalhou com 35mm não tenha aprendido. Aprendemos a química do filme, por exemplo, o que significava você ter um tipo de películas, a luz, os filtros, todos os recursos tecnológicos que você tinha que ter para dominar a química da fita que estava usando.
Terminou sendo um tipo de aprendizagem muito interessante, mas, de fato, houve um preconceito muito grande, muito, muito grande. Apesar de que, se você lembrar, Almodóvar, os primeiros filmes dele, inclusive que ele fez circular, foram filmados, fotografados em super-8. Até hoje existem festivais em super-8 fora do Brasil, na Europa e nos Estados Unidos. É uma bitola que continua sendo usada e é muito legal.
No Brasil não ocorre porque a gente é nicho de mercado, então na hora que acabou o nicho do super-8, começaram a chegar as câmeras em VHS e praticamente morreu o super-8 no Brasil. Para você filmar em super-8 no país é um carnaval porque você tem que comprar fora, mandar revelar fora e, quer dizer, se tornou inviável trabalhar com película super-8 no Brasil. Aliás, está ficando inviável trabalhar com película no Brasil, hoje é mais barato trabalhar com o 4k, quase todo cinema brasileiro hoje é digital, mesmo que eu faça cópias, transfer e copie tudo para película para participar de alguns festivais, mas hoje quase todos os filmes estão sendo feitos digital no Brasil, por causa da questão do custo.
  1. Durante o Terceiro Ciclo de Cinema, onde os filmes produzidos eram exibidos? Haviam festivais, cineclubes ou circuitos cinematográficos?
Eram nos festivais, cineclubes... Aonde dava e quando a polícia deixava também, porque algumas vezes, em exibições de festivais que a gente organizou aqui, saímos da sala de exibição com a polícia federal correndo atrás da gente.
  1. Algum filme seu foi censurado na época?
Não, a polícia federal não censurava os filmes, censurava a gente (risos). Ela ameaçava os cineastas. Numa das noites, uma vez, estávamos exibindo filmes na antiga reitoria, que hoje é o INSS, estava tendo exibição de filme lá e a polícia federal chegou para impedir e a gente reagiu ao policial, estávamos eu, João de Lima e Pedro Nunes. Eu e João de Lima saímos para levarmos a notícia e vermos se passava por telex para o pessoal do Correio Brasiliense e para Folha de São Paulo e, nesse meio tempo, a polícia chegou, inclusive para levar a mim e ao João porque a gente tinha afrontado o policial. Encaramo-lo, dissemos umas verdades e como o policial federal é deus, você deve imaginar que ele voltou com metralhadoras e ameaçou as pessoas, ameaçou professores que estavam lá.
Se ele tivesse pegado nós dois, estaríamos ferrados, não pegou porque a gente estava no jornal, na máquina de telex. Conseguimos mandar para folha de São Paulo, Jornal do Brasil e Correio Brasiliense. No dia seguinte, saiu uma notinha, pequenininha avisando que a polícia federal havia invadido o festival.
  1. Porque existia essa perseguição com os cineastas daqui?
Porque toda ditadura odeia os artistas, odeia os cineastas, odeia a cultura, odeia a liberdade de expressão e a polícia federal sempre foi algo muito, muito, muito cruel com a cultura brasileira. Eles têm uma dívida imensa com o Brasil, eles deveriam se comportar melhor e não estão fazendo isso atualmente, inclusive. Eles deveriam se culpar para limparem as almas, porque são pessoas que se dedicaram a censurar a cultura e a perseguir politicamente os artistas, não tem explicação para eles interromperem uma mostra de cinema feita por estudantes, com filmes que são basicamente de natureza antropológica. Acho que a Policia Federal deveria incluir a disciplina de Arte no currículo de formação de seus membros com aulas teóricas e práticas.
  1. Na época que foi realizada a mostra de cinema estava em cartaz nos cinemas daqui, nas salas comerciais, filmes como: Vida e Gloria de uma Prostituta, Fêmea do Mar-pornográfico, entre outros. Como esses filmes, mesmo com temática sexual, conseguiam passar pelo crivo da censura e Mostra de vocês foi censura?
Para eles a pornografia era importante porque você canalizava toda uma inquietação popular ou qualquer coisa que houvesse para o lado da sexualidade. Qualquer ditadura fala em nome da moralidade, se diz contra a corrupção, mas no fundo são os mais corruptos, são os mais pornográficos.


O que ocorre é que a pornografia não era chocante para eles, porque não atentava contra o poder deles, o que atentava era um grupo de estudantes querendo falar, se expressar livremente. A pornochanchada no Brasil, inclusive, prosperou durante a ditadura militar, você via todos os cinemas lotados de produções pornográficas e eróticas e não havia censura alguma nisso. Era plenamente aceito, no entanto, era proibido qualquer outro tipo de manifestação inteligente.


  1. Então, você poderia assistir o pornochanchada, mas não poderia discutir sobre sexualidade...
Você não poderia discutir sobre sexualidade livremente. Faz parte da hipocrisia da sociedade, agora mesmo nessa crise política que estamos vivendo, as pessoas querendo dar um golpe de estado parlamentar na presidenta Dilma Rousseff, claramente um golpe, o mundo todo se manifestando, e eu tive a oportunidade de conhecer alguns colegas que me mostraram no WhatsApp deles alguns vídeos, e a política era misturada com as mulheres gostosas, a pornografia misturada no meio da política. Eu até brinquei com eles, disse: “interessante você fazendo campanha contra a corrupção, os costumes e não sei o quê, no entanto, o grupo de vocês que apóia esse impeachment, é um grupo altamente pornográfico”, e ele brincou comigo e disse assim: “ah, mas isso é só para diversão. Basicamente essa hipocrisia existe em todos os tempos, o fato é que o cinema incomoda quando você vai lá e diz as coisas que têm que ser ditas, o teatro incomoda, a literatura incomoda, os intelectuais incomodam porque pensam e eles não querem que você pense, querem que você seja apenas uma das criaturas da boiada.
  1. ... então, quando a sexualidade era discutida de forma mais acadêmica, isso incomodava.
Incomoda até hoje, você chama uma discussão dessas e as pessoas ficam incomodadas: por que? Porque, na verdade, nos bastidores, elas têm um tipo de comportamento, mas diante da sociedade, outro comportamento.
Uma das coisas boas de você ser um artista, eu sou um artista de teatro também, é que a gente tem uma vida muito noturna, por causa dos ensaios e tudo, ensaiamos muito à noite, então vemos muitas coisas que ocorrem à noite, até porque muitas vezes – hoje eu não faço tanto isso, mas alguns colegas mais jovens continuam fazendo –, saíamos para tomar uma cervejinhas e encontrávamos pessoas da grande moralidade nos lugares que a gente ia tomar a cerveja, que eram os cabarés de João Pessoa, porque estavam abertos. Chegávamos lá e estavam os senhores da moralidade, nos fazíamos de invisíveis, mas isso é muito comum, essa dupla personalidade dessas pessoas e não é uma coisa só do Brasil, essa hipocrisia é generalizada. Quando você vê um cara falando muito de moral, vá atrás que a coisa é feia. O que é complicado é que eles atacam os artistas, os cineastas. Atacam com ferocidade: É tanto que uma pessoa me mandou um e-mail, recentemente, dizendo que a culpa toda da corrupção no Brasil era dos professores e dos artistas.
  1. Trazendo um pouco para hoje em dia, a gente vê que a grande mídia está apoiando o golpe, o impeachment da presidenta Dilma. Naquela época, como a imprensa se comportava?
Você tem que entender o seguinte, a grande imprensa quando apoiou o golpe de 64, toda essa grande imprensa, a Folha de São Paulo – a Globo não, porque a Globo era uma organização que continuou no poder – quando eles tomam o poder, alguns setores são colocados à margem. O que aconteceu foi que alguns setores da imprensa começaram a sofrer censura, enquanto outros não sofriam censura nenhuma. O Globo, por exemplo, foi tranquilo, cresceu e se desenvolveu totalmente, mas a Folha de São Paulo sofreu bastante, mesmo tendo apoiado o golpe, apoiou o golpe militar e depois foi para a macaca.
Haviam alguns jornais que obviamente mantinham essa cobertura mentirosa, tentavam falsear, mas haviam jornais que já tinham sido marginalizados Por exemplo, a gente denunciou as coisas que estavam acontecendo aqui em alguns jornais do Brasil e eles deram destaque, colocaram a publicação lá, se você for atrás um pouquinho na história, esses grupos tinham apoiado, mas logo depois entraram pelo cano.
Foi o que aconteceu com Carlos Lacerda, um dos conspiradores que botou João Goulart para baixo, foi um dos caras que lutou pela cassação dele e pelo golpe militar e logo em seguida ele próprio é cassado e preso. Acontece muito isso. É porque não tem lugar para todo mundo, então, o mais forte joga o outro fora. É uma briga de foice.
Haviam setores da grande mídia que apoiavam o cinema brasileiro, que apoiavam as causas da luta contra a censura, a Folha de São Paulo chegava a publicar nas suas páginas receita de bolo, indicando ao público que aquele material havia sido censurado.
Aqui tínhamos apoio discretos de alguns jornais que nos davam tijolinhos, notícias, tudo. Mas havia também colunistas locais que se alinhavam a uma postura absolutamente predatória contra professores que vinham dar aula na UFPB e atacavam esses professores, chamando-os de tudo quanto não presta, do mesmo jeito que você vê hoje esses famosinhos que estão aí, essas criaturas escrevendo na Veja, em blogs atacando os artistas e intelectuais, havia a mesma coisa, só que numa escala menor, porque hoje com as redes sociais, com a internet, essas coisas se multiplicam com uma força muito maior.
Vocês estão podendo assistir hoje algo muito parecido e talvez se as coisas continuarem a dar as conseqüências para adiante, talvez a gente chegue a assistir a censura materializada. Censura de espetáculos já começou, eles invocam a lei, o juiz dá uma liminar, a liminar não tem fundamento, mas o cara de qualquer forma dá e para você derrubar uma decisão dessas você tem que recorrer e o espetáculo tem hora para acontecer, então... funcionou como uma censura.
Havia apoio de determinados setores e havia, por outro lado, a perseguição, através de colunistas nos jornais que pegavam pesado, atacavam de forma pesada as produções, por exemplo, de Pedro Nunes. Houve ataques pesadíssimos ao Pedro NUnes, por causa do filme Closes, que é um filme da época, não era do NUDOC, mas foi feito naquela mesma circunstância e foi um filme muito chocante que sofreu uma censura e uma perseguição muito grande.
Eu acho que a gente tem que lutar com isso mesmo, a história da humanidade é essa mesmo, a gente vai continuar fazendo filmes, vão existir períodos de relativa liberdade e vão existir períodos em que esses malucos fundamentalistas aparecem, porque eles não morrem, ficam embaixo da terra esperando a hora de surgirem com a sua maldição zumbi, aí eles vêm contaminam os outros que transformam-se em zumbis... A melhor metáfora para isso que tem no mundo hoje é “The Walking Dead”, porque é como um zumbi, esses fascistas aparecem, contaminam os outros e as pessoas se tornam zumbis deles sem saber o porquê. Aí passa um tempo, melhora aquela crise do vírus zumbi, mas daqui a pouco aparece de novo, a gente tem que aprender com isso, quer dizer, se preparar sempre para isso, através da reflexão e não perder a esperança de melhores dias para a humanidade e não deixar de fazer arte. A arte é aquilo capaz de curar o coração humano, através na arte você pode educar a humanidade, educar a sensibilidade.
  1. Realizamos entrevistas com outros cineastas que produziram em super-8 na Paraíba e a maioria deles citou seu filme “A Sagrada Família” como uma referência no período, por ser inovador. Você pode falar um pouco desse filme?
Esse filme foi o encerramento da oficina, do primeiro curso que eu fiz da Varan aqui, e eu aproveitei uma situação pessoal, na verdade, uma situação que eu vivia dentro de casa com meu pai alcoólatra. Era uma situação muito difícil e eu não tinha como retrabalhar isso e, na época, fiz muitas leituras, havia cursado algumas disciplinas de psicologia aqui [UFPB] e tive acesso à obra de Freud. Através dessas obras eu comecei a entender alguns mecanismos psíquicos das pessoas. O filme “A Sagrada Família” foi um modo que eu encontrei de recuperar a imagem do meu pai e de curá-lo dentro de mim.
Se você assistir ao filme, verá que ele começa com meu pai chegando em casa, embriagado e vai conduzindo a embriaguez dele, até o momento em que o filme vira e aparece uma imagem que é ele varrendo, como se ele varresse aquilo tudo, e aí a família é completamente outra, as pessoas estão organizadas, conversam, dão depoimentos sobre a vida, sobre as perspectivas e tudo. É uma estrutura que eu trabalhei muito em cima de um conto, uma novela conhecida, chama-se “O médico e o monstro”, que é o doutor Jekyll e o doutor Hyde, o homem bom e o homem mau que existe dentro de cada pessoa, e a estrutura do “Sagrada Família” é uma estrutura do duplo, em que você começa com o mau, com o monstro, o alcoólatra que perturbava toda família, mas ele se transforma num homem bom. Através da “Sagrada Família” eu consegui recuperar em mim mesmo o amor de meu pai, porque a história triste era se eu tivesse começado com ele bonzinho e terminasse com ele monstro, mas o que eu fiz no filme foi: através do cinema direto, elegi ele como personagem para mostrar que aquele homem que se figurava mau naquele sentimento, era um homem bom e eu acho que o filme terminou sendo profético porque anos depois ele deixou a bebida, venceu o alcoolismo e foi muito importante ter feito isso, ter construído isso através do cinema.
Na época eu pensei muito “rapaz, vou fazer um negócio desses?!”, mas no fundo os artistas têm que saber de uma coisa: você já está em carne viva mesmo, não precisa mais esconder porra nenhuma, a pele já está toda arrancada, então.... Eu não aconselharia outra pessoa a fazer, acho que isso fica para os artistas que podem lidar com esse tipo de profundidade da emoção e transformar suas emoções e a sua própria vida em algo icônico para experiência das outras pessoas, que sirvam também para que os outros reflitam. “A Sagrada Família” tem essa característica, mas o título não fui eu que dei. Quando terminei o filme, não sabia que título dar.
Lembrava também o conto da “Bela e a Fera”, só que era a “Bela e Fera” de uma certa forma na mesma estrutura do “Médico e o Monstro”, do Stevenson – que era o escritor inglês –, e aí tem um filme do Jean Cocteau, a Bela e a Fera, que me impressionava muito, uma produção em preto e branco, um filme muito místico. E aí eu trabalhei com essas questões, quer dizer, dentro da estrutura do filme. Se você assistir ao filme bem direitinho de novo, vai perceber claramente a estrutura dele, o modo como ele está armado, o modo como ele começa, como separa os momentos e como constrói a cura.
A última imagem do filme, que é a minha avó, ela está com uma faca sentada num batente e ela balança a faca, a imagem é toda azulada, e toca a “Polonaise Militar” do Chopin, a única música que tem no filme. Aliás, só tem duas músicas, uma que é “Let it Be”, que eu botei para tocar na hora que era o meu irmão, ele está sentado na cama e diz “não, não quero falar” e a câmera caminha e tem uma metralhadora desenhada no espelho da cama e toca “Let it Be”, que é o “deixar estar”. Foi uma construção muito bem pensada, apesar da situação, mas foi bem calculada para que as coisas todas pudessem ter aquela construção narrativa que eu consegui. Também tem uma coisa importante: o movimento de psiquiatria chamado antipsiquiatria de David Cooper, com os livros: A gramática da vida” e “A morte da família”. Essas duas leituras junto com as leituras de Freud, o filme de Cocteau, “A bela e fera e, o livro do Stevenson, me ajudaram a conceber a estruturação do duplo na pessoa humana de meu pai e, uma permissão, que acreditava, que se eu curasse aquilo através do cinema, eu me curaria.
De fato, aconteceu isso, toda minha raiva transformou-se em algo bom, em compaixão, quando eu comecei a entender a coisa, a estrutura veio e fiz o filme, montei o filme. Terminou se tornando uma produção estranha porque enquanto todo mundo fez filmes sobre outras coisas, eu fiz um filme sobre algo que me perturbava profundamente. A arte termina sendo assim, a gente termina enfrentando coisas que nos perturbam profundamente e você tenta encontrar respostas para isso e quando eu procuro encontrar essas respostas, termino ajudando outras pessoas a encontrarem suas respostas. Ficaria muito feliz se “A Sagrada Família” ensinasse outras pessoas a perdoarem os seus pais ou outras pessoas da família, que num primeiro momento têm, aparentemente, sidos muito maus, ensinar que mesmo quando são muito maus, eles podem ser muito bons, se você consegue encontrar o caminho de cura para ele em você mesmo. Isso foi o que aconteceu com meu pai, não por causa do filme, mas de uma certa forma com o tempo ele mudou e foi muito legal.
Agora, é claro, não deixa de ser chocante, algumas pessoas me questionaram isso: “você filmou seu pai, não sei o quê...” e eu disse: “rapaz, acho muito mais prático fazer isso e tentar me recuperar através desse amor e demonstrar isso num filme onde eu termino mostrando o meu pai poeta recitando um soneto, feliz, num ambiente bucólico construindo algo positivo, do que eu, por exemplo, ficar com a minha vida toda magoada, cheio de trauma e considerando meu pai um monstro pelo resto da vida”. Então é melhor encarar logo e lavar a roupa suja diante das pessoas, como os cristãos antigos faziam, o pecado nosso é esse aqui, vamos nos purgar logo.
Sei que realmente é algo que só artistas podem fazer porque geralmente uma pessoa que não lide com a arte não vai ter ferramentas para canalizar essa energia, pronto, isso é freudiano, chama-se sublimação. Eu peguei toda energia psíquica e sublimei através de uma obra que constrói a transformação de uma situação má, numa situação boa, é isso que é o “Sagrada Família.
Quem deu o título foi Pedro Santos, ele viu o filme e disse “qual o título?” e eu pensando no filme do Jean Cocteau, digo: “Pedro, não sei, não tenho certeza”. A gente tinha que ir para um festival e o filme não tinha título e ele disse “já sei, Everaldo, seu filme vai se chamar ‘A Sagrada Família’”, aí eu falei “tudo bem, ele vai se chamar ‘A Sagrada Família’, mas eu não vou colocar letreiro – o crédito inicial –, se for o caso se coloca o crédito final. O filme é um dos poucos do NUDOC que não tem, no princípio – depois colocaram, mas não é do filme, foi colocado pelo pessoal para digitalizar, o filme mesmo não tem letreiro, não tem nada –, ele tinha uma parte explicativa no final, mas que não era do filme. Eu dizia para Pedro: é muito ruim você colocar um título numa obra dessas, é como um quadro, já imaginou? Eu pinto um quadro e coloco um título pregado embaixo da moldura, a primeira coisa que eu faço é tirar o poder dele, as possibilidades de leitura que isso tem porque o título é muito forte, não é? Olha só: “A Sagrada Família”, aí isso já vai formando ‘sagrada família’ na cabeça, mas o ‘sagrada família’ de Pedro não era o ‘sagrada família’ da história sagrada, é do livro de Friedrich Engels e Karl Marx, porque Pedro era marxista, que foi outra coisa que eu questionei com ele: “Pedro você vai colocar esse título e vai ser pior ainda, vamos ter que colocar uma bula para explicar para o público que não se trata da ‘Sagrada Família’ das pinturas que vendem e as pessoas colocam na sala de jantar, que é outra coisa, aí é mais complicado ainda”. Mas ninguém perguntou sobre isso e eu pensei: “sabe, deixa para lá!, porque senão ia ser uma bula mesmo para explicar a tese dele e tal. Acho que a obra de arte não precisa ter muitos letreiros, ela é o que é. Este filme ganhou uma importância e uma força que me assusta porque até hoje tem gente trabalhando com o ele.

É um filme muito simples, filmado em ektachrome, é todo feito com luz natural. Em alguns momentos há situações estranhas: Quando estou dentro de casa, por exemplo, eu dependia de uma fonte de luz forte fora, então você vê que a câmera procura encontrar uma janela, o tempo todo estou atrás de uma janela porque quando você está dentro de um ambiente escuro, trabalhando com ektachrome e – trabalhar com luz artificial seria triste porque o filme ficaria muito avermelhado – aí eu tive que calcular. Não existe filme inocente, todo filme é calculado, ensaiado, mesmo um filme daquele meio que preparado para ser feito com uma quantidade muito limitada de película para usar. Quer dizer, deu certo, né? 

Wednesday, December 09, 2015

IV MOSTRA UNIVERSITÁRIA ARTES EM CENA

 O Departamento de Artes Cênicas da UFPB viveu de 25 de novembro a 4 de dezembro de 2015 um evento memorável: a IV Mostra Universitária Artes em Cena. Carecia a nossa universidade de espaços como este que foi criado por um grupo de professoras da Licenciatura em Dança da UFPB.

Esta Mostra foi algo que construiu uma ponte entre a universidade, a escola, e a comunidade, não se limitando apenas a oferecer uma programação de espetáculos, indo além, e promovendo ações formativas com oficinas, minicursos e sessão de debate. Esta Mostra promoveu sobre as espaços para teorizar a prática artística. Foi além do que se podia esperar numa situação de parcos recursos financeiros e materiais contando sobretudo com a paixão pela arte, pelo ensino e pela formação de plateias. A mostra também incluiu uma mostra de curtas e videodanças.

Este ano em sua quarta versão fomentando ações culturais mostrou a sua capacidade de conquistar espaços na agenda cultural da cidade de João Pessoa. Não temos receio de afirmar que este foi um acontecimento que pela sua força, nos fez relembrar de outros grandes momentos que houve na cidade de João Pessoa e que se foram embora nas picuinhas politicas dos governantes, tais como: O Festival Nacional de Arte(FENARTE), e a Mostra Estadual de Teatro e Dança.

Um aspecto interessante foi a ocupação de espaços, uma vez que vergonhosamente o Centro de Comunicação Turismo e Artes(CCTA) não possui um espaço para as artes cênicas. Não possui nem mesmo espaços decentes para as aulas, quiçá para apresentações artísticas. Mas isto não foi nenhum fator limitante para a Mostra Artes em Cena. Em seu programa vemos que ocupou muitos lugares: o Centro de vivência da UFPB, que é um grande pátio coberto entre o restaurante universitário e as lojas de conveniência e bancos; Ocupou também o corredor do CCTA; um outro vão do CCTA; o prédio de Artes Cênicas ainda inconcluso( quando chegará o dia em que estará plenamente funcionando?); a sala 227, que possui um piso de madeira improvisado para as aulas de corpo e dança; o hall do CCTA; um espaço junto a reserva florestal próximo ao CCTA; os pátios das escolas Castro Alves e Moema Tinoco.

É claro que se pode louvar esta versatilidade de usos do espaço disponível, até mesmo porque a arte foi se esparramando pelo mundo acadêmico, e como as flores do campo, não parou de florescer diante dos obstáculos, sempre renascendo mesmo em contextos adversos. São estas flores artísticas que encantaram um publico ávido por arte.

Foram apresentarados os espetáculos: Doi-doi AIDS; Bailando sobre rodas; Improvisation and musicality; Maracaboi; Não é que; Mensagem para o amante de meu marido; No mundo da rua; O verbo eu; Sim, por que não?; Kali-tribal fusion; Saudade meu remédio é dançar; ligações; Anjo caído a ditadura da beleza; Poema negro; Intimus; Cancão, Trupizupe e Malazarte; CP service.

Os filmes: Transformações de Paulo Vítor Luz Correia; Tocando o meu destino de Juliano Morgado; Sobre rodas de Valter Henrique da silva; O vendedor de coisas de Deleon Solto; Sobre viver e morrer de Helder Oliveira e Luciana Portela; Monturo invisível de Leandro Gonçalves; Os passos de um preceder de Ewellyn Lima; Dessa vez sozinha de Jackson Dutra.

Houve as oficinas: Teatro de rua; Dança holística; Teatro partindo dos sentidos; Leitura da cena de dança e teatro; Técnicas básicas de malabares, Capoeira, e Feedback.

Foram muitas coisas e um grandiosidade exemplar de um evento humilde que deu o exemplo para outras instancias da administração cultural, seja da universidade, do município de João Pessoa e do estado da Paraíba. Estes lugares são extremamente necessários, principalmente, e mais agora, neste mundo destrambelhado de ódios e fundamentalismos de todos os tipos.

O mais incrível, é necessário que fique registrado, que paralelamente a esta Mostra tão densa ocorria VI Jornada Internacional de Pesquisa em Artes cênicas também promovida pelo Departamento de Artes Cênicas da UFPB, uma encaixada na outra como uma engrenagem perfeita. Em um dos dias do evento o público vindo de uma das sessões de comunicação oral da Jornada, adentrou a sala 227, onde ocorreriam as apresentações de “Não é que” e de “Mensagem para a mante de meu marido”. Quando o publico entrou na sala as duas atrizes de “Não é que”, Luiza Oliveira e Luna Alexandre, já estavam no palco, o tablado de madeira que serve de piso. A plateia sentou-se numa formação frontal, quase à italiana, publico de um lado, artistas do outro.

Foi belo observar o respeito daquele público quase em atitude de adoração. Aproveitando o título da performance, refleti: não é que esta Mostra em Artes foi capaz de seduzir o coração das pessoas, de fazê-las mergulhar na fruição do trabalho artístico e principalmente transformar um espaço inadequado no melhor dos lugares. Tomei aquele acontecimento como um prenúncio que um dia, iremos ter os nossos espaços cênicos reconstruídos e respeitados dentro da Universidade Federal da Paraíba.


É bom também registrar a equipe que tornou possível esta Mostra. Suas coordenadoras: Carolina Laranjeira e Juliana Polo. A colaboradora Michele Gabrielli. Os alunos bolsistas: Jessica Lana e Sandro Régio. Os monitores: Aelson Felinto; Alice maria; Maira rodrigues; Maycon Nascimento; Miguel Segundo; Nina Pontes e Kelner Macedo.

Monday, October 05, 2015

O ANIVERSÁRIO DO ATOR FERNANDO TEIXEIRA

Os aniversários são efemérides que nos enchem de fantasia e nos remetem aos sabores e maravilhas que a vida tem.  É apenas mais uma volta ao redor do sol, mas que termina sendo um grande momento, e como sabemos, a melhor coisa que existe entre os que participam deste jogo é conseguir dar mais uma volta.

Aceitando a ideia de que o mundo é um palco, estamos a cada uma destas circuladas nos atualizando em nossos papeis. Assim é que os atores tem a missão ou dádiva de viverem sempre mais voltas que todos os outros seres humanos, pois que vivem as suas voltas em muitas vidas. Dizem os atores a si mesmos que tem o privilegio de poderem exercer o seu oficio em todas as suas idades; o que coloca o ator numa criatura que tem o beneplácito da eternidade de sua função, pois que nunca verdadeiramente se aposenta. Quando mais jovem interpreta os grandes papéis, quando é velho interpreta os grandes papeis, pois a alma continua plena de vida em todas as suas máscaras.

 Assim, é que começo a tecer a minha homenagem a esta figura que é um símbolo da arte teatral, não somente da Paraíba ou do Brasil, pois atores e atrizes têm por natureza uma dupla nacionalidade, são ao mesmo tempo de sua terra natalícia e também são cidadãos do mundo.

Quero desejar feliz aniversário ao ator, diretor teatral, dramaturgo e professor aposentado da Universidade Federal da Paraíba, Fernando Teixeira. E dizer que ao vermos este homem no palco a nossa vida se ilumina de desejo de fazer teatro, de ver mais teatro e de encontrar-se com a beleza da natureza humana que ele tão bem representa nos palcos e nas telas de cinema.

 Este homem de teatro tem continuado a sua trajetória também como mestre de muitas gerações com a sua coerência em amar o teatro, inspirando aos recém-chegados que é possível  exercer este oficio plenamente, não como um bico que surge apenas como entretenimento de final de semana, mas como uma razão primeira para continuar existindo.

 Gostaria de externar o meu carinho por quem foi também meu professor, quando estudei a Licenciatura Plena em Educação artística, e também das oficinas de teatro onde ele nos apresentou ao mestre russo do treinamento de  atores Constantini Stanislavski.

 Viva então aos que podem chegar a plenitude de sua arte em todos os papeis, em todos os momentos, vivendo longamente sobre o palco do mundo sem que se possa desejar outra coisa a não ser aplaudi-lo mais uma vez.

Feliz aniversário ao ator que nos leva ao mais profundo segredo da alma humana através de suas personagens, de sua entrega quase mística ao seu oficio. É belo ver nos olhos do ator as suas mil vidas, os heróis de mil faces que decanta a mitologia de tantos povos.

Assim é que convido todos para silenciosamente respirarem fundo e desejarem ao ator Fernando Teixeira, parabéns por mais uma jornada ao redor de nossa estrela, e desejar mais outra jornada como se novas cortinas e outros cenários se de abrissem, como vão se abrir e não temos porque temer a imensidade da alma humana em todas as suas cruéis contradições.

Vale amar os atores pelo que eles são, mais vale ir ao teatro para estar diante, olho no olho, com as sombras e as luzes de nossa existência.

Acredito que este é um momento para celebrarmos a sua vida como um grande momento entre nós num tempo tão cheio de amarguras e de pessoas que destilam tanto ódio em suas palavras; celebrarmos o ator que é capaz de mergulhar em suas almas e revelar a profundidade dos infernos e também a grande vitória da liberdade e do bem. Aqui me remeto ao espetáculo de Fernando Teixeira, Esparrela, em cartaz desde 2009, na qual um urubu resiste ao seu opressor e liberta-se.

 O teatro vem nos lembrar que apesar daqueles que vivem para odiar e oprimir os mais pobres e indefesos, sempre haverá um momento em que estes senhores cairão por terra, e enfim o pássaro poderá alçar o seu voo.

Pelo seu teatro de metáforas tão poderosas para este tempo em que vemos ressurgirem ao nosso lado, pessoas que se vestem de ovelhas e revelam-se lobos fascistas, é que o teatro precisa celebrar a vida de seus atores, pois são eles  que na intimidade da relação palco-platéia servem de antídoto para a ditadura da grande mídia comprometida com disseminação do ódio.

 Viva o teatro, viva o seu grande mestre e artífice  Fernando Teixeira, junto com todos os que mantém viva a chama da liberdade, do amor, da beleza, da justiça e da vida.

Neste momento também gostaria de chamar ao palco Zezita Matos, Cida Costa, Anunciada Fernandes, Geraldo Jorge, Solha, Criselide Barros, Celsa Monteiro, Florismá Melo, através dos quais saúdo a todos que amaram (e continuam a amar) a arte do teatro ao longo de suas vidas. 

Friday, January 09, 2015

TEATRO EM 2015

Para iniciar este ano começamos com o pé direito com a programação promovida pelo Centro Cultural Piollin, o projeto Piollin Teatro 2015, que acontecerá de 9 de janeiro a 9 de fevereiro com espetáculos de teatro, circo e dança. Participam deste maravilhoso evento os seguintes grupos: Grupo Artesanal( De Janelas e Luas – 7 e 8 de janeiro); Piollin Grupo de Teatro( A Pá – 9,10,11 de janeiro); Los Iranzi( Caminhão de Palhaços - 10 e 11); Grupo Osfodidário( Quincas - 15 e 16 de janeiro); Paralelo Cia. de Dança(Experimento Pina - 17 e 18 de janeiro); Produções Cia. de Dança e Teatro( Celibato - 17 e 18 de janeiro); Cearte(O Louco e a Morte e A Ressurreição de Lázaro e O Predador - 22 e 23 de janeiro); Coletivo Soul( Hamlet: Solo - 24 e 25 de janeiro); Grupo Sírius( Efemérico - 27 e 28 de janeiro); Galharufas Cia. de Teatro(Mercedes - 29 e 30 de janeiro); Cia. Oxente( Anáguas - 31 de janeiro e 1º de fevereiro); Alfenim Coletivo de Teatro( O Milagre Brasileiro - 5 e 6 de fevereiro ); Guardiões do Fumo( Os Malefícios do Fumo - 7 e 8 de fevereiro).

O ano começou com as melhores promessas para o teatro paraibano. Passamos os últimos anos sem a emblemática casa de espetáculos que é o Theatro Santa Roza, que vem passando por uma grande reforma e restauração. Esperamos vê-lo aberto em breve, depois desta extensa pausa, totalmente renovado e com certeza animando as atividades culturais da cidade.

O Teatro Paulo Pontes, que também foi restaurado e reformado, já abriu as suas portas para a solenidade de posse do novo governo do estado. Um bom augúrio de que esta casa de espetáculos estará de volta às artes cênicas ainda este ano e quem sabe, possamos contar com a volta dela abrigando novamente o Festival Nacional de Arte(FENARTE).

Uma grande novidade foi a inauguração da Centro Cultural Ariano Suassuna do Tribunal de Contas do Estado da Paraíba localizado em João pessoa, que tem em sua estrutura o Auditório Celso Furtado com 420 lugares, ambiente climatizado e condições técnicas de receber espetáculos.

Já está assegurado a realização da segunda Mostra Internacional de Teatro(MIT), que teve inclusive aprovado o seu projeto pela Caixa Econômica Federal e agora procura novos parceiros para garantir a ampliação do evento com mais espetáculos nacionais e internacionais.

Temos pela frente a promessa de algumas estreias para o segundo semestre. Entre elas o inédito “De joão a João”, baseada na carta que João Dantas escreveu para João Pessoa em 5 de junho de 1930, prenunciando pelo clima passional o crime que ocorreria em 26 de julho do mesmo ano. O texto é de Tarcísio Pereira, que dirigirá o espetáculo e fará o papel de João Pessoa, tendo o ator Flávio Melo no papel de João Dantas. Disse-me Tarcísio que fará o espetáculo “com Fic ou sem Fic” . O FIC é o fundo de incentivo a cultura do Governo estadual, que tem ajudado a dinamizar a produção cultural paraibana.

Em fevereiro teremos a continuidade da temporada do espetáculo “Henrique IV”, texto de Pirandelo que teve a tradução, adaptação e direção de Osvaldo Anzolin com os alunos do Bacharelado em Teatro da UFPB.

Uma novidade também é a volta do bailarino Maurício Germano ao palco, sob a direção de José Maciel no espetáculo Celibato.

Também repercutiu muito bem a indicação do poeta Lau Siqueira para a Secretaria de Cultura do Estado, e da professora Márcia Lucena para a presidência da Funesc.

Um evento que também começou a agitar o ano foi o lançamento do edital para a escolha da já tradicional montagem da Paixão de Cristo promovida pela Funjope, cujas inscrições de projetos se encerraram na última semana com nomes de peso apresentando as suas propostas. O resultado serão conhecidos nos próximos dias e já começa a agitar os atores que tem neste evento uma das raras oportunidades de trabalho profissional em João Pessoa. Conversei com alguns proponentes que esperam com ansiedade pelo anúncio do projeto vencedor como se já estivessem prontos para iniciar a corrida de velocidade, que é dar conta de um espetáculo desta magnitude em dois meses.

Seria interessante também que a Funjope em 2015 abrisse espaço para dialogar com o forum de teatro, que é um excelente lugar para ampliação de politicas publicas.


Também se espera que a Prefeitura de João Pessoa ao lado de projetos grandiosos como o Parque da Lagoa, desse atenção também ao Teatro da Juteca, que continua a ser mais uma promessa de campanha que não é cumprida, talvez porque o que interessa por vezes é a fachada da grande mídia e o trabalho comunitário não seja interessante, mas aquela pequena casa de espetáculos é um monumento das artes cênicas paraibanas.  

Tuesday, September 16, 2014

PODE SER QUE SEJA SÓ O LEITEIRO LÁ FORA

Recebemos o espetáculo do GTP, Pode ser  que seja só o leiteiro lá fora, para uma agenda de apresentações e oficinas entre João Pessoa e Areia, entre os dias 23 e 29 de julho de 2013. Pode ser que seja só o leiteiro lá fora, representa um dos grandes momentos da dramaturgia brasileira contemporânea. É uma obra do dramaturgo Caio Fernando Abreu, que conseguiu equacionar as angústias da juventude brasileira. È um texto do inicio dos anos 70, que sofreu os revezes da perseguição da censura e demonstra ainda hoje toda a sua força dramática.

Interessante e oportuno que o GTP tenha escolhido Pode ser que seja só o leiteiro lá fora para coadunar com o momento impar que foi este acordar da juventude brasileira com as grandes manifestações de rua que contaminaram o país. Podemos dizer que São Paulo acordou o Brasil e o Grupo de Teatro da Poli, meses antes, atinou para texto, antes que os acontecimentos se precipitassem naquilo que foi um dos grandes momentos do despertar da consciência brasileira. A juventude paulista acordou o Brasil e provocou uma das maiores manifestações populares de insatisfação com a corrupção política.

, O público poderia até  parafrasear o título do espetáculo e dizer:  pode ser que seja somente o GTP no palco, mas foi muito mais. Estes atores e atrizes das áreas de ciências técnicas conseguiram mostrar a força do teatro universitário e longe das preocupações dos holofotes da mídia e do sucesso colocaram o drama e a agonia da juventude neste momento atual da sociedade.  Eles trouxeram este fim de encruzilhada que o texto de Caio Fernando Abreu tão bem evoca num contundente libelo contra o conformismo -  o mundo parece que vai acabar, mas tudo depende somente de um pequeno passo a mais.

A diretora Néia Barbosa disse que a escolha do texto foi feita pelo próprio grupo. Eles estiveram em João pessoa numa ação promovida pela Universidade de São Paulo e a UFPB.  A USP ciente da importância de seu grupo, fundado há 45 anos, enviou uma representação institucional, a professora Beatriz Jordão, dando ainda maior peso ao modo como aquela universidade encara o seu teatro universitário.
 O grupo fez apresentou-se no Teatro Lima Penante do Núcleo de Teatro Universitário da UFPB; no auditório do Casarão 34 da Fundação de Cultura da Cidade de João Pessoa;  no Festival de Artes de Areia, no histórico Teatro Minerva, para uma plateia lotada.

O grupo também realizou oficinas para atores em João Pessoa no palco do Teatro Lima Penante. Um dos momentos belos da passagem do grupo foi a sua visita à Escola Piollin, onde participaram de uma tarde de atividades com circo e treinamento com os alunos daquela escola. Alguns alunos da Escola Piollin também participaram das oficinas promovidas pelo GTP.

O espetáculo Pode ser  que seja só o leiteiro lá fora, conta a estória de um grupo de jovens que se encontram numa noite num casarão abandonado. Eles resistem a esta noite na espera de um amanhecer, que ao final revela-se sombrio. A fragmentação das vidas frente aos desafios de uma década como foi o inicio dos anos 80 com o despontar da  aids, trazia inumeros outros desafios para para a juventude, os dramas da sexualidade e daquele clima herdado dos anos 60 com toda a sua promessa de liberdade estavam agora sendo postos em confronto.

Na cenografia vemos expressa esta dureza nos restos e lixos da cidade, toda composta por materiais coletados nas ruas, trazendo para perto e também como personagem desta encruzilhada, como se questionasse o fundamento de humanidade numa sociedade que se canibaliza a si própria em rituais perversos de pão e circo e, onde o individuo é somente mais uma peça no tabuleiro.

 No elenco: as atuações brilhantes de Sebastian kapelus, um talento para a arte dramática brasileira, igualmente a bela Isa Takata. As atuações excelentes de Igor Gold Stein, Tiê Higashi, Fábio Luz, Carlos Viegas, Miguel Giansante e Brunno Silloto.

O grupo concebeu o cenário e a luz. A sonoplastia foi desenhada por Kauan Medeiros e a operação de luz e som foram de Néia Barbosa e Viviane Simões. É preciso também ressaltar a primorosa direção de Néia Barbosa, que conseguiu fazer de alunos da Politécnica atores tão sensíveis e bons como os da escola de artes cênicas.

O grupo de Teatro da  Poli vem mostrar a importância do teatro universitário. A vice- diretora de extensão que acompanhou o grupo, Beatriz Jordão, disse da importância de humanização através do teatro em setores apenas dominados por uma visão tecnicista da alta tecnologia. Neste sentido, vê-se o bom exemplo que a USP dá a outras universidades que encarando a formação universitária de forma holística, preparando profissionais capazes também serem indivíduos sensíveis  e aptos a contribuírem com a qualidade afetiva do ser humano.  O teatro universitário é uma das melhores ferramentas para a consecução deste fim, pois tanto contribui com quem participa, como também com quem convive com a atividade do grupo teatral em seu  meio.

 O GTP foi criado em 1945 e é mantido pelo  Grêmio da Escola politécnica. O GTP é um grupo de  atores amadores, futuros engenheiros e pesquisadores das áreas tecnológicas mais avançadas do pais, mas vislumbra-se entre eles grandes talentos. Foi desta escola e deste grupo que saíram atores como Carlos Zara.

Para que se tenha uma ideia do nível de organização do GTP, segue abaixo texto de Néia Barbosa e Agatha Mourão da página do GTP no Facebook:

“O GTP – Grupo de Teatro da Poli é um grupo de teatro não profissional que existe desde a década de 40, na Escola Politécnica da USP e pertence ao Departamento de Cultura do Grêmio Politécnico. O Grêmio atualmente é o sustentáculo financeiro do GTP, pois propicia a remuneração necessária aos profissionais da área de artes cênicas que faz parte do Grupo: uma coordenadora e quatro diretores de núcleo. Em 2011 o GTP mudou sua coordenação, depois de sete anos consecutivos.”
“O Grupo de Teatro da Poli entrelaça e aborda várias formas de teatro e montagens, buscando sempre uma humanização e comunicação com o mundo que nos cerca. Anualmente, esses projetos de pesquisa são alterados, criando ao longo dos anos, uma visão mais ampla do teatro. O GTP e seus diferentes núcleos estão ancorados por profissionais e pessoas com respeitada experiência no fazer teatral. Hoje o GTP é coordenado por Néia Barbosa e possui 04 diferentes núcleos: Amarelo, Azul, Vermelho e Verde. Essa estrutura é formada por núcleos interdependentes e separada, por blocos de pesquisas diferentes.”
“O Núcleo Amarelo é dirigido por Fábio Azevedo. É o núcleo iniciante, formado por pessoas que não tem nenhum conhecimento teatral. Seus objetivos são introduzir técnicas básicas teatrais com ênfase na capacitação do ator e promover através do uso de jogos teatrais um ambiente que proporcione relaxamento, descontração e socialização dos alunos participantes. O Programa de Trabalho foca na conscientização corpórea, vocal e cênica: o corpo como ferramenta de trabalho, como utilizar a voz no teatro, como funcionar em uma peça teatral. Usará de técnicas básicas de decupagem e análise de textos. Como desmembrar o texto teatral e descobrir seus pormenores. A gênese do personagem.”
“O Núcleo Azul e o Vermelho são intermediários, formados por indivíduos que possuem algum conhecimento teatral e cênico, através do próprio GTP ou de um conhecimento anterior, na vida pregressa do participante.”
“O Núcleo Azul – dirigido por Tales Penteado, vai trabalhar a disciplina de Comédia Política. Objetivam discutir e utilizar o teatro como forma de orientação e apoio na formação de um ser criador e criativo, que age, interage, questiona e transforma o mundo à sua volta. O Programa de trabalho focará desenvolver trabalhos através de jogos teatrais, expressão corporal e leitura, estimulando a capacidade mental, social e artística. Desenvolver atividades de integração de grupo. Estimular, através de jogos, a conscientização corporal e vocal. Produzir cenas, esquetes, a partir de temas, sinopses, histórias ou estímulos. Objetivos, conflito, espaço, corpo. Quando? Onde? Por quê? Conceitos básicos de interpretação, para depois poder apresentar pra eles algumas obras, alguns autores e juntos escolhermos 'onde' nos aprofundar.”
“O Núcleo Vermelho – dirigido por George Gottheiner – vai se debruçar sobre a disciplina Drama. Esse núcleo tem como objetivo aprimorar a relação do aluno/ator com o palco, abrangendo todas as unidades requeridas, o andar, o falar, a escuta, a relação com o outro e o respeito para com a área de trabalho. Sensibilizar o ator para que possa desenvolver seu lado criativo quebrando sua racionalidade, a hierarquia entre corpo e mente, para que ambas as partes possam trabalhar em conjunto. Através de jogos e exercícios tentar aproximar o aluno/ator ao mundo teatral, ao lúdico, saindo do seu meio comum, ultrapassando seus limites, de uma forma ao mesmo tempo prazerosa e criativa. Trabalhar a intuição, a prontidão, o trabalho em grupo e a entrega, possibilitando ao aluno/ator uma melhor performance tanto no trabalho teatral, como fora do palco, na universidade, no trabalho e na vida pessoal. Por fim, colocá-lo em contato não só com a dramaturgia teatral, mas com diversas áreas do mundo artístico, ampliando sua visão de mundo e seus questionamentos.”
“O Núcleo Verde é formado por participantes do GTP que querem exercer mais o fazer teatral. São pessoas dos outros diferentes núcleos, estagiários, diretores, atores profissionais, que querem se aprofundar e conhecer mais sobre teatro e se exercitarem para tal. A proposta da direção de núcleo é que se trabalhe o simbolismo teatral em seus vários nuances. Desde a construção da cena e da personagem até a compreensão de texto. O exercício das artes cênicas se faz acima de tudo através dos pés do ator no palco. Então, o Núcleo Verde pretende apresentar duas peças para 2011. Estas peças estão sendo estudadas e escolhidas com o núcleo.”
“No final do ano haverá uma montagem de cada núcleo, trabalhado ao longo do ano, cujo texto será escolhido de acordo com a linha de estudo, a opção e decisão dos respectivos diretores e os atores do Núcleo.”