Fui ver o espetáculo Benedictus com roteiro e direção geral de Ana Paula Correia, Joãozinho e Mariana Navarro. Letras e músicas de Joãozinho. O Teatro Paulo Pontes estava lotado. Há uma beleza muito grande nesta atividade teatral que congrega as pessoas em torno de um espetáculo religioso com a finalidade precípua de inspirar transformação espiritual. Isso é uma herança direta do teatro litúrgico medieval, quando a Igreja resolveu usar as artes cênicas como meio de evangelização. Até hoje, este tem sido um meio eficiente de propagação do ensinamento cristão.
Lembramos que as escolas católicas tinham, em sua arquitetura, um teatro e muitas atividades cênicas, incluindo as procissões, que são eventos de natureza teatral, embora também se revistam de um caráter litúrgico em algumas ocasiões. Esta é uma estratégia fascinante da mistagogia, ou da educação para o mistério.
No caso de Benedictus, trata-se de uma atividade de uma comunidade católica que vem utilizando essa estratégia desde a sua fundação. O espetáculo atual é um musical bem construído, que fascina o público por três horas, divididas em dois atos de noventa minutos e um intervalo de quinze. Trata-se de uma superprodução amadora, com banda e coral ao vivo, além de atores e atrizes cantores com uma preparação vocal adequada.
Este espetáculo conta a história do apóstolo Paulo, desde o período em que perseguia os primeiros cristãos até a sua morte. O fio condutor da narrativa são as cartas apostólicas que contribuíram para dar forma ao cristianismo como doutrina religiosa. O espetáculo apresenta o homem antes chamado Saulo — seu nome de nascimento — com todas as suas contradições: um homem comum que carregava uma missão gigantesca após sua conversão.
O texto apresenta aquele Saulo seguidor da Lei, formado entre os doutores da tradição judaica, inflexível e soberbo em seus pontos de vista, em contraste com o novo homem, Paulo, que encontrou Jesus na estrada de Damasco. Esses dois homens lutam dentro do mesmo corpo, às vezes cometendo profundas injustiças, como a que praticou contra Marcos, que viria a ser um dos evangelistas presentes no cânone do Novo Testamento.
Esse é o cerne desta abordagem da personagem Paulo, que mostra como a santidade é construída sobre a realidade de seres humanos carregados de falhas e envolvidos numa luta constante para melhorar a si mesmos.
O espetáculo possui um excelente apuro técnico-musical. A banda ao vivo acompanha toda a encenação, realizando inclusive a paisagem sonora das cenas, criando efeitos musicais e sincronizando os momentos de canto com as falas. A direção demonstrou competência na encenação de um musical.
Uma equipe grande dividiu-se em diversas tarefas. A cenografia, assinada por Carol Gugel,Thales Cavalcanti e Maria Almeida, aproveitou recursos de iluminação e projeção, trazendo elementos simples, mas extremamente funcionais, como foi o caso do barco utilizado nas cenas que mostram as viagens de Paulo.
A iluminação com design de luz de Gabryella Barros teve também um papel muito importante, recortando os ambientes de cada cena e construindo uma sensação de grandiosidade nos momentos de apoteose. Os figurinos com design e produção de Gabriela Dalcin, Hellayne Teotônio e Gorette Formiga, igualmente merecem destaque, pois se colocaram a serviço da história que estava sendo contada, tanto nas personagens históricas quanto naquelas de caráter alegórico, como as cartas apostólicas personificadas pelas atrizes-cantoras.
A maquiagem, com design de Mariana Menezes, Maria de Fátima Lima e Raiana Azevedo, também teve uma participação marcante, delineando com precisão os rostos em cena. A participação das bailarinas foi fundamental na construção das atmosferas dramáticas e foi muito bem realizada pelo grupo, que se integrou ao conjunto especialmente nos momentos de multidão.
Merece destaque a equipe técnica de sonorização, responsável pela administração dos microfones sem fio, um setor de difícil operação, principalmente quando envolve um elenco tão numeroso. Não houve falhas perceptíveis nesse setor, cuja eficiência costuma ser medida justamente pela sua invisibilidade, pois, quando o público percebe a presença dos microfones, normalmente é porque algo deu errado. É uma tarefa extremamente difícil de controlar.
Tudo isso foi possível graças ao empenho das pessoas e à vontade coletiva de construir algo voltado para a evangelização. Esse era o foco comum de todos os participantes. Com atores profissionais, um projeto dessa natureza teria de obedecer a outro ritmo de produção, e os custos seriam altíssimos.
A comunidade religiosa Instituto Beneditino Em Adoração está de parabéns. Torço para que mais pessoas possam assistir a este espetáculo. Seria ideal que ele pudesse ser apresentado na Praça do Povo, em espaço aberto ao público, ou até mesmo durante a Festa das Neves. Não sei se seria possível realizar uma adaptação para esses contextos, mas acredito que se trata de uma obra que deveria alcançar um público ainda maior.
No formato atual, o espetáculo permanece restrito ao público que consegue acessar a temporada. Seria muito bom que mais pessoas pudessem conhecer esse trabalho e perceber que se faz um excelente teatro musical na Paraíba. Tudo isso poderia crescer ainda mais, inclusive como meio de formação de novos artistas e técnicos para esse campo das artes cênicas.
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